[Você pode ler este texto ao som de The Lightning Strike]

– Acabou, desculpa, não era você.

De todas as palavras que você ouviu, acho que “acabou” foi a mais forte. É uma daquelas decisões definitivas que não dependem da gente e que, na maioria das vezes, a gente nem previa. Vem como uma tsunami enquanto você tava de costas tirando uma foto e mostrando o mar pra mandar por whatsapp pros amigos como um dia qualquer. Acho que o ponto é exatamente esse: até agora, todos esses pareciam um dia qualquer até você ouvir que acabou. E agora, como vai ser amanhã sem ele(a)?

A primeira reação é de susto. Enquanto submerge à força na correnteza, o seu cérebro tenta bolar uma maneira prática e rápida de salvar a sua vida enquanto o seu corpo sente a dor da porrada, o choque provocado pelo frio e você começa a se afogar involuntariamente. A maioria das pessoas acaba se afogando nesse momento e não tem Jack pra ceder lugar na mobília flutuante em alto-mar. Pelo contrário: foi ele quem tirou toda a mobília de perto e te atirou do navio. E você continua sufocando um pouco e luta pra entender isso, apesar de já ter um conceito mais ou menos formado na sua cabeça das coisas que estão por vir.

Quando a gente ouve um “acabou”, os papéis sociais do relacionamento mudam. Quem você ama se torna seu algoz e você passa a ser um mártir desolado. No fundo, bem na verdade, você não queria que as coisas fossem assim. Queria continuar vivendo o seu mundo encantado onde a felicidade residia num endereço com prédio e apartamento já gravados na memória. Queria prosseguir com aqueles planos de sempre e com as caminhadas no parque aos domingos. Queria continuar visitando a família dele e, meu Deus, como vai ser agora? Acho que o maior problema de ser mandado embora contra a vontade é ter que entender as partes do todo que levaram o outro a esta decisão. Depois disso, a parte mais difícil fica em consertar a vida.

500

Como você explica pra todo mundo que o mundo desmoronou quando você nem sabe o motivo? Você tenta ficar bem, fingir que todos os dias continuam sendo os mesmos, mas a gente sabe que tudo mudou. Mesmo que o caminho pro trabalho ou pra casa seja o mesmo, ontem e hoje são dias pertencentes a épocas completamente diferentes. E, por mais que você não queira, você descobre que o outro é um desconhecido, ou cretino, ou alguém que você vai aprender a odiar por ter despejado você.

Mas, focando nesse ponto, vamos a um breve comentário sobre a natureza das pessoas: a gente vai sempre tentar encontrar motivo ou raciocínio lógico pra explicar o porquê disso quando a gente achava que tava tudo bem. Na maioria das vezes, o outro tava travando uma batalha interna tão grande que a gente nunca viu. Nunca foi sobre a gente, sabe? Ele(a) talvez tivesse chegado à conclusão de que não era pra ser e não havia nada que a gente fizesse pra mudar isso. Não era com a gente, era a forma com que o outro nos via. A forma como ele(a) se sentia do nosso lado, as coisas que passavam pela cabeça e pelo coração. Por isso, ele(a) pode até ter feito a gente feliz, sem dúvidas, mas será que ele(a) tava feliz? Amor não foi feito pra ser prisão e, olha, o mundo é gigante. É um pouco egoísta prender alguém pra ser a pessoa da nossa vida se a recíproca não é verdadeira. Numa análise fria e compreensiva até demais, talvez ele(a) só estivesse buscando uma chance de ser mais feliz com alguém que não era você.

Você, bem, você não deve estar querendo pensar nisso agora. Que se foda o outro, afinal de contas ele já é seu algoz. Mas a questão aqui, que pode fazer toda a diferença, é o modo que a gente escolhe em lidar com o fato de ser expulso da vida de alguém. A gente pode carregar isso como mágoa e cravar uma guerra pessoal maior ainda ou a gente pode tentar entender que o mundo é gigante e que amor não é mesmo uma prisão, nem pra quem decide ir, nem pra quem acaba ficando. Coisas acontecem, pessoas vão embora, pessoas se ferram, é o ciclo de vida de muitos relacionamentos. No meio disso, a gente pode encontrar um final feliz ou uma estadia feliz, independente do que aconteça depois dela.

Mas, se me permite deixar um conselho, eu diria que a melhor forma de superar isso é deixar um pouco de lado essa necessidade que a gente tem de entender todos os motivos que levaram ao “acabou” doloroso. Acredite em mim: você já vai ter trabalho demais arrumando a sua vida daqui pra frente, então quanto menos drama, melhor pra você. Ponha tudo em pratos limpos e pense que você não era a pessoa da vida dele(a). Talvez ele(a) nem fosse da sua também. Olha mais pro que vai vir pela frente porque todo recomeço traz um novo mundo de pessoas e expectativas pra nossa vida. Boa sorte com isso.

bovo