Não consegui o emprego dos meus sonhos e muito menos o apartamento decorado que eu esperava ter. Mal consigo me organizar para viajar e conheci menos países do que gostaria.
Minha vida parece uma bagunça, meu quarto é uma bagunça e eu passo mais de 12 horas por dia trabalhando. Tudo isso enquanto me sinto na obrigação de ter uma vida saudável, passear com o cachorro, fugir do sedentarismo, discutir política e me mostrar integrado aos últimos acontecimentos do mundo.
Mal sobra tempo para respirar, quem dirá para “fazer nada”.
A crise dos relacionamentos líquidos
Meus relacionamentos têm inícios mais rasos que piscininhas naturais. Raramente passam do meio, estagnam nessa loucura das grandes cidades e se perdem nas prioridades que tento elencar enquanto o tempo corre.
Desisti de voltar ao teatro porque dizem que eu já deveria saber sapatear, cantar, atuar e dançar antes da minha primeira peça. Cada vez me sinto mais velho para tentar algo novo, já que a sociedade diz que eu deveria ter, supostamente, conseguido tudo aos vinte e poucos anos.
De onde vem essa cobrança surreal?
Não sei se essa pressão foi algo criado pela minha geração ou se já existia antes a ideia de que temos que ser jovens bem-sucedidos, decididos e cheios de certeza.
O que observo é o nascimento de crises de ansiedade em mim e nos meus amigos. Não nos basta seguir degraus; desejamos supervitórias que condizem com os superpoderes que disseram que a gente tinha.
Mas, por mais afobados que sejamos, vejo crescer também uma leva de gente que tem feito coisas incríveis cada vez mais cedo. E aí mora o perigo.
O erro da comparação (e o efeito Instagram)
Temos uma mania tóxica de comparar nossos bastidores com o palco dos outros.
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Vemos um astro do rock milionário aos 20 anos.
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Uma blogueira na capa da Forbes aos 21.
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Um empresário de startup unicórnio aos 22.
Olhamos para nossas vidas comuns e nos sentimos fracassados. O erro não é a falta de autoestima, é ignorar os contextos. Esquecemos de analisar os caminhos, os privilégios e as renúncias que esses “modelos de sucesso” tiveram.
A expectativa irreal da vida adulta
Criamos concepções irreais de como deveria ser nosso futuro imediato. Queremos estabilidade, tempo para viajar, reconhecimento na carreira, um cachorro que nos ame e vizinhos silenciosos — tudo isso antes dos 25.
Nossa vida adulta mal começou e já queremos ser recebidos com glórias, sem nem lutar o tempo necessário para que elas amadureçam.
Desacelere: você não está atrasado
É necessário que a gente desacelere. Que a gente entenda que a crise dos 20 e poucos anos é fruto de uma sociedade imediatista. O sucesso não vem fácil, e não vem rápido para a maioria de nós.
Isso não significa deixar de tentar. Pelo contrário:
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Devemos começar mais vezes.
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Devemos percorrer os objetivos que nos frustram.
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Devemos aceitar que podemos voltar para a aula de teatro, mesmo sem saber dar piruetas.
Espero que você também repense as coisas que ainda não aconteceram. Talvez elas só demorem mais um pouco. Talvez você só precise cobrar menos de si mesmo e confiar mais no seu processo.
É o que eu tenho tentado fazer.
(Texto originalmente publicado em 2016 e atualizado com novas reflexões sobre a ansiedade moderna).
Leia também: Se você sente que essa cobrança está afetando sua saúde mental, leia também: Você precisa aprender a ser mais gentil com você mesmo.
