É a música dela tocando. Ela dita um ritmo que se perdeu. Quando foi que você se perdeu assim? Ela já não sabe mais. Deixou de tentar faz tempo. Não adianta tentar classificar essa história como uma história de amor. Ou uma história de abandono. Ou até uma história de quem assinou um contrato e largou o amor à revelia. Ela abandonou o barco, o bote, o porte e se deixou de lado.
Você e essa discussão de até aonde eu iria pra você ver que isso é amor. Acho que a gente nunca vai chegar num ponto comum quando fala sobre isso. Até quando eu abro a porra da porta do táxi pra te ver indo embora com outro sujeito qualquer que não seja eu, é amor. Altruísta e egoísta ao mesmo tempo. Eu sempre vou embora e sei que não posso te pedir pra ficar pra sempre me esperando numa sala de estar com um sorriso congelado no rosto. É a mesma coisa que te transformar em manequim com teias de aranha e aquele olhar triste das vitrines abandonadas da cidade.
É você e vai ser sempre você. Eu já disse isso em outro desses textos meus e não consigo deixar de pensar em como essa frase martela na minha cabeça. Já falei sobre independência e sobre como eu não preciso de você pra nada. Já falei sobre deixar você ir embora e sofrer uma, duas, trinta vezes e mais um pouco toda vez que abrisse a porta e desse de cara com esse seu sorriso de quem ainda tem esperanças de que eu largue esse modo de ser e entenda tudo isso. É você e vai ser sempre você. Mesmo que seja teimosia minha e eu te reinvente a cada dois minutos dizendo pra mim mesmo que você não é nada que eu sempre quis e conte pros outros uma versão diferente de nós dois.
Ontem meus pés doeram pela primeira vez. Aliás, meus joelhos estalaram bem na hora em que eu fui dar uma corrida para atravessar a rua antes do sinal fechar. Me assustei. Sinais de que o meu corpo não é tão mais resistente assim. Estou ficando velho como a maioria de nós. Mas eu sempre idolatrei essa coisa da juventude rebelde e do poder que ela tem. Dou apoio a causas como o amor livre e o direito de fumar um baseadinho até hoje. Não nasci pra ser careta. Nem careca. Mas as entradas na minha testa me fazem repensar a minha antiga opinião de quão ridículo eu ficaria com peruca. Desconsiderei a vergonha dos fios falsos logo que cruzei a esquina. Se for para envelhecer, que eu assuma isso de frente, com cabeça erguida – mesmo sem cabelo algum – e de queixo erguido. Se bem que, a papada não o deixaria tão erguido assim. Droga! Essa minha mania de antecipar as coisas futuras não é de hoje. Antecipar a velhice é só uma das muitas coisas que eu já tentei antecipar. É que eu não sei sofrer na hora certa. Eu gosto de sofrer por antecipação, o drama (e também a esperança) de sofrer em vão por algo que eu nem sei se vai acontecer ainda.
Você nunca gostou dessa coisa de escritor que eu tinha, confessa. Sempre disse que isso me deixava com um ar arrogante e fantasioso demais. E sempre me disse que as minhas leituras beiravam a aleatoriedade na forma com que as conduzia e refletia sobre elas. Acontece que ontem eu descobri a nossa história por meio de uma dessas leituras que eu vejo por aí. Era algo da Tati Bernardi e falava sobre como as nossas exatidões eram tão perfeitas um para o outro, mas não eram feitas para serem somadas. Fiquei calado por uns cinco ou dez minutos depois que li aquilo. Não é por mal. É só que. Assim. Eu sou meio atraído por você de uma forma que nem eu sei explicar.
Eu sempre tive essa malícia no sorriso. Meio menino, meio caçador. Meio sem saber o que fazer da vida enquanto observava algumas curvas femininas bem à frente. Aquela mordida no lábio de quem deseja o que vê e aquela timidez de quem não consegue se mexer sem revisar na cabeça por mais de trezentas vezes todos os passos até lá. É atraente essa minha forma de mover as pernas com nervosismo e de esboçar umas palavras sem nexo e propósito. Não aprendi a ser direto nem firme demais na vida. Tenho alma de escritor leviano que desdenha das palavras quando sabe usá-las. Vai ver é por isso que eu não valho absolutamente nada.
Enfim, boa noite, gente bonita. Amanhã a gente conversa mais ;) 2 hours ago
meu problema é não conseguir fechar os olhos pro mundo e nem saber o que fazer pra melhorá-lo. 2 hours ago
Pra gente que tem plano de saúde e não depende do serviço público é fácil. Mas imaginem quem precisa ter sua vida salva com esse descaso... 3 hours ago
A gente brinca, se diverte e fala besteira. Mas quando a gente percebe que a realidade da saúde do país tá tão precária assim, chega a doer. 3 hours ago