[Você pode ler este texto ao som de Je Sais]

Alguns anos atrás, poucos meses depois de terminarmos, eu vi uma coisa que me marcou bastante. Nas escadas que desciam para o metrô de Montmarte, um casal se beijava como se aquela fosse a última vez que vissem um ao outro, do mesmo jeito que nós fazíamos. Quando acabaram, ouvi a moça dizer algo ao rapaz que não entendi no momento: “Tu me manques”.

Não é difícil encontrar por aí muitos artigos, textos e posts em redes social dizendo com orgulho que o português é a única língua que tem um termo específico que dê conta de sintetizar o sentimento de saudade. Confesso nunca ter procurado a validade dessa informação, gosto da ilusão de que seja verdade.

O mais próximo disso se tem disso em francês é essa expressão. O que a moça disse, numa tradução literal, foi “você me falta”. Após saber disso, fiquei pensando e acredito que isso remeta a um sentimento mais forte que a própria saudade.

“Você me falta” não é “sinto saudades” ou mesmo “sinto a sua falta”. Não soa como um sentimento, mas como um fato. E sempre que esbarro nessa expressão hoje em dia, me pego pensando em você. Faz muito tempo já, mas eu ainda sinto que parte de mim ficou contigo. Você me falta numa sexta à noite sozinho no bar, e numa segunda de manhã à caminho do trabalho. Você me falta em todas as músicas que eu não posso mais ouvir. Você me falta em cada beijo gelado e cerveja quente que eu sou obrigado a tomar para esquecer que agora eu sou menor.

Mesmo um soneto perfeito é manco se lhe faltar o décimo quarto verso. E sem você eu sou justamente isso, manco. E você já viu como anda um manco que tenta seguir em frente, menina? É com muita dificuldade. Você me falta como um braço. O esquerdo. E mesmo que eu ainda tenha o direito para fazer todas as minhas atividades, nada realmente parece estar sendo feito certo. Eu sou canhoto.