Enquanto você ainda doía, eu queria esquecer que você passou pela minha vida. Não queria nem nossos dias bons. Não queria nada que estivesse qualquer relação com você. Não ia aos lugares que batíamos cartão. Se pudesse, mudava até o meu caminho para não passar nem na frente.

Enquanto você ainda doía, eu me esforçava para sair da cama. Parecia que nada me empolgaria tanto quanto você. Nada deixaria a vida tão cheia de graça e… bem, de vida! Sei lá. Estava tudo sem nexo. Sem razão de ser. Sem cor ou gosto.

Enquanto você ainda doía, eu a odiava por estar ao seu lado. Sororidade é o cacete. Era pra eu estar ali e não essa… E não ela! O que ela tem que eu não tenho? Droga… Ela é linda mesmo, né? E dizem que é gente boa também… Vaca.

Enquanto você ainda doía, eu pirei pra te esquecer. Tentei todos os conselhos de amigas, mãe e avós. Segui tutoriais de internet. Li crônicas e escrevi o dobro. E, no fim, só conseguia encerrar com um sincero: “Te quero bem porra nenhuma”, porque você ainda latejava.

Enquanto você ainda doía, eu fiquei sem me encontrar. Sem um lugar e sem chão. Sem saber quem eu era sem você. O que restava de mim e como eu poderia me desapegar do resto de você.

Enquanto você ainda doía, eu fechei os olhos para o mundo e me tranquei em mim, na busca por encontrar algo que valesse a pena ressuscitar. Eu não sei quanto tempo levou. Pode ter sido uma semana, mas sempre vai parecer uma eternidade.

E foi enquanto você doía que eu me refiz. Fiquei de pé sozinha pela primeira vez em muito tempo. Reaprendi a andar (e, sim, eu precisei engatinhar primeiro, tropeçar e errar os passos tudo de novo).

Foi enquanto você ainda doía que eu fiquei forte para você sumir. Até que a dor começou a diminuir gradativamente… Hoje eu consigo falar de nós sem sentir você me machucar de novo. Mas, isso, só porque você já não dói mais.