Wednesday 23rd April 2014,
Entre Todas as Coisas

Tudo passa.

Daniel Bovolento 19 de maio de 2013 Crônicas e contos
Tudo passa.
Leia em tela cheia!


É tão estranho quando passa. Quando aquele sentimento de que eu nunca ia achar alguém igual a você passa. Quando aquela agonia nada bonita no peito, que até chega a inspirar ou a despertar sérios motivos pra terapia, passa. Porque na troca desse sentimento meio triste, meio sozinho, de gostar de quem não gosta da gente, de sentir por quem recusou claramente ou por acidente, na troca disso tudo e no meio do turbilhão, a coisa para. Fica um buraco. Um buraco com tampa e um vazio diferente. Um vazio novo que a gente ainda não se acostumou, que tinha alguma coisa que preenchia antes e agora não tem, mas também não dói. É o vazio do que passou. E do nada eu percebo que você já não me incomoda tanto assim, que eu consigo acordar e passar por você sem ter um aperto, sem me sentir perdido, sem ter nó na garganta e uma crise de alergia pra disfarçar as mãos suando e o efeito da sua presença. Do nada passa e é tão estranho quando passa…

Eu achei que você nunca fosse passar. A gente sempre acha que vai demorar muito, ou que a atenção nunca mais vai desviar o foco de você, ou que a gente nunca vai conseguir mais engolir a saliva que fica presa na garganta em todas as vezes que você aparece com alguém, mas passa. Daí fica a saudade. Sabe aquela saudade gostosa que persiste, que a gente usa pra tentar sentir de novo enquanto faz todos aqueles testes de reação pra ver se você ainda incomoda? Saudade estranha essa. Nem é boa, nem é ruim. É persistente. Acho que é pra dar algum conforto nesse nó no peito que se desfez.

E há os que não conseguem desapegar dessa dor, desse sofrer-que-ainda-não-passou e guarda isso pra sempre. Porque se não bastasse perder – ou nem ter ganhado – você, agora eu também perco o nó que você me deu. Como se isso fosse uma companhia compensatória. Sofrer demais é amar pra quem precisa preencher algum vazio qualquer, mesmo que as formas não se encaixem e sempre sobre mais vazio dos outros lados. O vazio transborda. E essa gente um dia vai aprender que precisa deixar passar. Aprende também que, quando passa, a gente tem que ser forte também pra reconhecer que já foi. Bola pra frente. História nova quando a gente esbarrar por alguém que vai ficar ou passar também. Porque se a gente se apega… Ah, acaba num ciclo infinito. Dor-do-que-não-passou trocada por saudades de sentir dor. Tem gente que acha isso melhor do que cantar Socorro e imitar o Arnaldo Antunes. Eu prefiro acreditar que não.

Mas agora, falando especificamente de você, de você ter passado, e de eu nem ter percebido a despedida, foi um estranho-bom. Foi bom porque a gente sempre acha que vai precisar de alguém pra ocupar o lugar e nem sempre é assim. Um dia desses a gente acorda e pronto, você passou. Um dia desses a gente nem se lembra mais do seu telefone. Dia desses a gente se esquece até dos seus gestos e acaba arrumando o armário sem dó nem piedade. Ah, tudo passa. Você passou e muita gente ainda vai passar. Eu mesmo já devo ter passado pra tanta gente e pra tanta gente que ainda nem esbarrou comigo ainda. Você passou e eu tô deixando você ir de vez. Sem me agarrar ao falso conforto da saudade que fica. Vai, pode ir, foi bom enquanto durou, mas eu já não preciso mais. Passou, passado. E fica até engraçado o jeito que a gente se pega vendo que o apego não tinha o menor fundamento e que tudo que a gente fez foi meio imbecil. Mas não foi em vão. Eu precisava ter feito de tudo, ter ouvido de tudo, ter comido de tudo, ter chorado de tudo, ter rido de tudo e mais um pouco pra você passar.

Pra essa gente que ainda não passou, espera um pouco. Um dia desses a coisa muda. Abre um vinho e põe pra tocar alguma música. De preferência alguma boa. “Você passa, eu acho graça. Nessa vida tudo passa e você também passou”. Cantarola e beberica comigo, baixinho ou no volume que achar necessário. “Dentre as flores, você era a mais bela, minha rosa amarela, que desfolhou, perdeu a cor”. E quando passar, deixa passar tudo de vez sem fechar a porta no meio do caminho.

Acredita em mim. Um dia passa. Comigo passou.

Gostou do texto? Compartilhe!

Deixe Um Comentário -

  1. Lais 19 de maio de 2013 at 11:07 pm

    Irônico mesmo é ler isso pensando no ex depois de ter passado o dia todo com ele.

  2. Jamile 19 de maio de 2013 at 11:11 pm

    É até engraçado quando acaba e achamos que vai durar o resto da vida, ai certo dia acordamos e percebemos que passou como uma brisa.. ADOREI!

  3. Juuh 19 de maio de 2013 at 11:13 pm

    Tudo passa. Sempre passa.
    Ainda bem.
    Dou, passou…
    Lindamente como sempre Daniel!!!

  4. Tamires 19 de maio de 2013 at 11:36 pm

    Os seus textos para mim são muito de momentos, e um desses momentos dificeis mas que pode ser superado pois afinal de contas todo mundo passa. E esse é exatamente expressa o que estou passando e sentindo. Mais um texto brilhante, uma obra a ser admirada ” pra sempre ” lhe admiro demais Daniel.

    ” Você passou e eu tô deixando você ir de vez. Sem me agarrar ao falso conforto da saudade que fica. Vai, pode ir, foi bom enquanto durou, mas eu já não preciso mais. Passou, passado. E fica até engraçado o jeito que a gente se pega vendo que o apego não tinha o menor fundamento e que tudo que a gente fez foi meio imbecil. Mas não foi em vão. Eu precisava ter feito de tudo, ter ouvido de tudo, ter comido de tudo, ter chorado de tudo, ter rido de tudo e mais um pouco pra você passar.”

  5. silmara 19 de maio de 2013 at 11:59 pm

    sabe quando vc n quer q passe, q a unica maneira de ter vc perto eh essa saudade q te faz mal mais q vc n quer deixar de sentir. A unica maneira de ter vc perto são as lembranças boas e eu realmente n quero deixar de sentir vc perto de mim…

  6. Clarice 20 de maio de 2013 at 12:41 am

    Que você esteja certo.
    E que passe. :)

  7. Paula Monteiro 20 de maio de 2013 at 12:52 am

    Faz um bom tempo que tropecei no teu blog e hoje me encontro completamente caída por ele!
    Quase religiosamente venho por aqui com a intenção de dar uma olhadinha básica e quando percebo já amanheceu e eu não fiz nem a metade do que deveria ter feito rs mas tudo bem, teus textos me fazem um bem danado. E a propósito, pode continuar bisbilhotando meus pensamentos tá?! Eu deixo ( :
    Parabéns por mais um texto FODA.

  8. Aninha 20 de maio de 2013 at 1:04 am

    Você sempre se superando… Que leitura prefeita de pensamentos. Parabéns mais uma vez Dani!

  9. CLAUDIA GOLIVER 20 de maio de 2013 at 9:43 am

    Maravilhoso texto, vou ate compartilhar parabens. é neh um dia passa…

  10. Samara Faleiro 20 de maio de 2013 at 5:43 pm

    Daniel, você é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom!!!!!!!!!!!!!!!!

  11. Débora Thalita 23 de maio de 2013 at 11:09 am

    Perfeito. Não tenho outra palavra pra descrever quão magnífico achei esse texto.
    Parabéns!!

  12. Nagilane 23 de maio de 2013 at 1:45 pm

    Procurando maneiras de expressar o que tô sentindo nesse exato momento,+ não sou boa em palavras como você…então,obrigada por dizer que um dia passa!!! :)

  13. Eduardo (eski) 1 de junho de 2013 at 9:43 pm

    ”…Saudade estranha essa. Nem é boa, nem é ruim. É persistente. Acho que é pra dar algum conforto nesse nó no peito que se desfez…”

    O que venho passando, talvez esteja perto de enfim acorda sem a lembrança do rosto dela.
    Foi perfeito, mas vai passar.

  14. Juliana 3 de junho de 2013 at 2:21 pm

    Quanto mais leio, mais eu me apaixono!!!!

  15. Aline 26 de junho de 2013 at 11:11 am

    Quer casar comigo ? kkk

  16. Juliana 10 de julho de 2013 at 10:25 am

    Já vinha adiando a leitura desse texto há um tempo acho que com medo que realmente passasse, mas agora vejo que a hora tinha que ser agora, depois de lê uma parte do livro em que acompanho, tinha caído a ficha seu texto veio para “fechar o caixão” (Sou boleira). É preciso deixar passar o que já não nos faz bem, tirar um âncora que já prendia meu riso, que inibia a minha vontade de viver (pq ele achava q eu tinha q crescer) qndo na verdade tudo que ele queria era ofuscar meu brilho para q eu pudesse ficar tão apagada como ele. Ah eu espero que dessa vez passe sem nenhuma recaída. E a dorzinha da saudade que vicia, possa ser trocada por eserança

  17. Milena 3 de setembro de 2013 at 10:41 pm

    Esse texto… Ah… Casava com quem o escreveu s2

  18. Jéssica 22 de outubro de 2013 at 7:35 pm

    Parabéns Daniel , todos seus textos são maravilhosos, esse então sem palavras …