Sexo casual não é desculpa para desamor


 
Eu tenho fascinação pelo cheiro das pessoas. Esta parece uma afirmação estranha para começar um texto que se propõe a falar sobre sexo casual, mas prometo que vou tentar fazer sentido. Perceba: cada pessoa é um conjunto de porquês, comos e quandos e eu, louca que sou pelas razões do mundo e pelo que figura nas entrelinhas, estremeço com cada nota de lavanda no cabelo, resquício de perfume de rosa no suéter recém-lavado ou tom amadeirado no pescoço. Eu sou assim: me encanta essa união de elementos particulares, sempre temperada de hormônios, histórias e acasos cotidianos.

Utilizando esta minha característica como norte para pensar as minhas relações, posso dizer o seguinte: faço o possível para que não passem despercebidos aqueles que passam por mim. Abro as narinas e sorvo de quem eles são como quem precisa deles para respirar. Isto é amor? Pode ser. Talvez não seja o amor romântico que nos prometeram quando éramos jovens demais para entender que sim, existem começos bonitos e finais que só chegam depois da parada cardíaca, mas que também existem momentos e horas e dias que são feitos para serem exatamente isso: momentos, horas e dias.

Acho cruel que se prometa qualquer coisa e não vejo em lógica em proferir sentenças que se perderão no tempo. A maior honestidade é dizer: sim, meu bem, há algo acontecendo e este algo pode não acontecer mais amanhã, mas ele é vivo e real enquanto se faz presente, enquanto é compartilhado, enquanto é sentido no material e no espírito. Ele é real e também somos nós, vivos, instrumentos das nossas ânsias, plenos naquilo que é nosso e pode não ter sido feito para durar.

Não há nada de errado nisso. Errado é fingir que não pode ser bonito se não for inserido em um modelo pré-estabelecido. Errado é dizer que, sendo uma noite, uma manhã ou um encontro depois de uma peça de teatro num domingo gelado, não pode ser respeitoso, repleto de poesia ou engraçadamente doce. Pode ser vulgar, pode ser afoito, pode ser até um pouco sem sentido – quem é que nunca se viu irremediavelmente atraído por alguém que não correspondia minimamente às suas expectativas, concepções de mundo e afins? Tudo pode porque, em bruta sinceridade, o desejo não obedece normas. Ele gosta das brechas. Ele se faz valer mesmo quando a cabeça se mostra incerta.

A questão é: desejar avassaladoramente não é desculpa para desumanizar o portador daquele corpo, daquela risada, daquele olhar semicerrado que faz estremecerem os joelhos, as coxas, os órgãos inteiros. Querer muito não é licença para tornar o outro objeto para ser esmagado no canto, revirado na cama, desconsiderado, empurrado para fora do leito assim que o dia se fizer por entre os prédios. Sempre há tempo para entender as particularidades do cheiro de alguém. Nunca é cedo ou tarde demais para comer em silêncio agradável ou discutindo o último filme que se viu no cinema ou simplesmente se preocupando em entender que o que aconteceu não pode “desacontecer” e que aquele ser que o encara, acima de tudo, é alguém com história, com medo, com choro, com sangue, com nó no peito e sentimento reprimido. Não é número, não é distração, não é tempo perdido. É carne, nasceu e vai morrer – assim como eu, assim como você.

No fim, pouco importa se eu vou sentir o cheiro da sua nuca por hoje ou pelo resto da minha vida. O único tempo que eu conheço é agora.

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