Ser solteiro em 2017 é uma experiência antropológica


 
Recentemente resolvi que precisava voltar para o mercado, contrariando minha preguiça extrema de conhecer pessoas e a ideia de Quintana de que é melhor cuidar do jardim e esperar as borboletas do que ir atrás delas. Cuidar do “jardim” é importante? Sim. Mas ninguém aqui é planta pra ficar esperando que a vida se movimente ao seu redor enquanto se alimenta de luz.

A essa altura do campeonato você já deve ter entendido que não estou falando do mercado de trabalho, mas do amoroso, esse estranho Carrefour repleto de ótimos produtos – e outros nem tanto – ao alcance dos olhos e das mãos, mas que não parecem caber no bolso de ninguém.

Voltando à minha decisão, fiz o que qualquer solteiro do século 21 faria para alcançar tal objetivo: baixei o Tinder. O problema já começa aí. Experimenta falar pra uma amiga que nunca usou o Tinder, que você está nele:

– Ah, mas nesse negócio aí (sic) você nunca vai encontrar ninguém pra namorar. Só tem gente pra transar mesmo. Pra namorar você precisa conhecer alguém em uma livraria, em um café, em um bar… outros lugares!

Partindo desse princípio, imagino que no momento em que nascemos somos questionados se preferimos ser uma pessoa para namorar ou uma pessoa para transar. Se a escolha for “para transar”, a orientação é nunca, em nenhuma hipótese, frequentar livrarias, cafés e bares, para que ninguém jamais te confunda com uma pessoa que escolheu “para namorar”. E mais! Se essa foi sua opção, você só pode fazer duas coisas: baixar o Tinder e viajar para tirar fotos com golfinhos, leões e grandes monumentos para colocar no seu perfil. Ok?

Pois bem. Voltando a essa experiência antropológica chamada Tinder, depois de algum tempo cheguei à conclusão de que quem está lá ou ficou solteiro recentemente ou já está há tanto tempo no aplicativo, que você se sente até íntimo da pessoa. Tenho vontade de montar um grupo de ajuda com esses velhos conhecidos pra entender qual o problema deles, porque certamente é o mesmo que o meu.

Generalizações à parte, aplicativos de relacionamento tem um “funil de conversão” impressionantemente frustrante. É mais ou menos assim:

– Número de combinações em um dia: 30
– Combinações que conversam com você / você puxa assunto e respondem: 6
– Conversas que ultrapassam o “Oi tudo bem? Tudo e você? Onde mora? Faz o que da vida?”: 2
– Encontros marcados para o final de semana: 1

Desses encontros de final de semana, se você der sorte, um em cada três vai ser muito legal. E você vai se dar muito bem com a pessoa, vocês não vão ficar sem assunto, será extremamente divertido e se organizar direitinho todo mundo transa.

Aí entra um grande mistério da humanidade: pessoas com as quais a gente transa – para onde vão? O que fazem depois que isso acontece? Por que possuem hábitos pós-coito tão peculiares? Isso a Globo não mostra.

Algumas até dão as caras pelo simples prazer de inventar desculpas esfarrapadas após desculpas esfarrapadas, que tentam justificar o porquê de vocês não poderem se ver de novo:

– Fiz uma cirurgia espiritual e não posso fazer sexo.
– Vou ao centenário da minha tia avó este sábado à noite.
– Minha prima do interior vai passar o final de semana comigo.
– Vou passar os próximos meses viajando para conhecer o processo de produção de cervejas artesanais.

Nesses casos, nunca conte nenhuma delas para sua amiga anti-aplicativos de relacionamento. Ela vai dizer que te avisou, o que só não é mais irritante do que ouvir “ah isso é normal. As pessoas somem mesmo, apesar de ser chato, sempre conte com essa possibilidade”.

O QUÊ?

Essas pessoas nunca leram O Pequeno Príncipe na infância? Nunca se perderam da mãe no supermercado e por isso não sabem como é sofrido quando alguém some de você inexplicavelmente? Além de tudo, eu que tenho que me esforçar para aceitar e achar esse comportamento normal? Jamais, cara pálida.

Sendo mais objetiva, eu poderia passar horas aqui falando sobre Bauman, Geração Y e todas essas teorias e análises que tratam sobre o quão escrotos estamos nos tornando. Mas a gente já sabe que, assim como a zueira, a escrotidão humana não tem limites e nem uma solução aparente. Então vou direto ao ponto e fazer o que fazemos de melhor nos dias de hoje: reclamar de forma generalizada de um cenário que nos incomoda, mas do qual fazemos parte e não nos esforçamos para mudar.

Ser solteiro no mundo moderno é um verdadeiro exercício de elevação espiritual. Você precisa ser otimista, mas nem tanto porque as expectativas precisam ser controladas. Resiliente, mas nem tanto, porque quem se adapta demais acaba se conformando com o que não deve. Paciente, e muito, porque se relacionar com pessoas anda pra lá de cansativo. Persistente, mas só um pouco, porque insistir para que algo dê certo é chato… Assim como esperar alguma coisa do outro é chato, querer que ele seja coerente é chato, achar que respeito e empatia deveriam ser sempre levados em consideração é chato, ter vontade de ultrapassar a barreira da casualidade é chato, se incomodar com tudo isso é chato. Resumindo: qualquer coisa que não inclua fingir naturalidade em relação ao fracasso amoroso coletivo que estamos vivendo é ser alguém muito chato aos olhos do mundo moderno.

Minha conclusão pessoal diante de tudo isso? O mundo moderno é que está chato pra cacete.

-

Você também pode gostar desse assunto. Assista ao vídeo abaixo:

Comentários