[Você pode ler este texto ao som de Soul Meets Body]

São poucas horas da manhã quando o telefone vibra debaixo do meu travesseiro. Quando você acorda meio lesado, não entende exatamente o que está acontecendo ao seu redor até que os seus pensamentos entrem em ordem. Coço os olhos, olho pra tela tentando focar, tem mensagem nova. Abro a mensagem, amiga bêbada, mais uma desventura amorosa com o mesmo cara. Ela sofre, ela vomita na privada sem ninguém pra segurar o cabelo dela, ela grita no apartamento até o porteiro interfonar pedindo silêncio. Ela resolve ir dormir.

Horas depois, conversamos num café da tarde regado à aspirina. Uma pra mim, que acordei no susto e passei o dia com dor de cabeça e duas pra ela, que sequer pregou os olhos direito. Ela treme e me conta que, dessa vez, pegou o namorado saindo de um café com outra. Os olhos cedem por baixo dos óculos escuros. Ela deixa escapar algumas coisas com a voz vacilante. Não é a primeira vez, ela não sabe se tem forças pra continuar. E começa a dizer que não entende. Não entende porque sabe que ele gosta dela. Porque ele não é assim quando estão os dois juntos. Porque os olhos dele brilham quando saem pra passear com a cachorra. Porque ele botou a porra de um anel no dedo dela e a apresentou para os pais. Porque eles tinham dado entrada num apartamento e começado a pagar a festa de casamento. Porque ela tinha certeza de que era fase, era o susto do compromisso, era um monte de desculpas que ele nunca deu, mas ela fazia questão de botar na mesa tentando convencer ninguém menos que ela mesma, porque as desculpas não me comoviam.

Quantas vezes a gente já fez isso? Quantas vezes a gente tentou arranjar desculpas e fazer com que nossa cabeça desse nós tentando criar uma trajetória racional que explicasse o erro de alguém? Tantas e tantas vezes. É uma maneira de amenizar algo que está bem na nossa frente: o outro escolheu um caminho que machuca a gente. Houve uma escolha, uma forma de decidir o futuro em que nós não fomos considerados.

Nessas horas, nós costumamos deixar o óbvio de lado. Tentamos criar situações, explicar para os amigos, defender o réu até o último minuto, mesmo que nem ele mesmo tenha negado a situação. Porque a gente acha que ama demais, porque a gente tem medo de perder a parte boa, porque dá vergonha admitir que alguém machucou a gente, porque, porque, porque. O que não faltam são argumentos – fracos ou fortes, não importa – para sustentar a defesa daquilo que não tem defesa.

Quantas vezes alguém que amou a gente não nos jogou pra baixo? Na verdade, acredito bastante na premissa de que as únicas pessoas que conseguem realmente nos machucar são aquelas em quem depositamos amor e confiança.

Quantas vezes alguém usou do amor para sustentar relações frias, que não possuem cuidado nem carinho, que não tratam o outro com afeto e respeito, achando que o simples fato de existir (talvez) amor justifique tudo? No fim do dia, a mais pura verdade é que ele foi um imbecil – para dizer o mínimo – com ela, e ela tentava justificar isso com outras coisas que mascaravam a realidade. Não uma nem duas vezes, mas algumas. Nada, minha gente. Amor sozinho é bom pra livro. Na vida real, é o compromisso com o bem estar do outro, é o tanto que a gente se preocupa e quer ver o outro bem que faz com que esse amor aconteça na prática.

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