[Você pode ler este texto ao som de Pelo Interfone]

Mais uma dose, pedi. O barman olhou de canto e me sorriu maliciosamente enquanto punha outro copo de whisky com gelo na minha frente. Sorri, entreguei-lhe uma nota qualquer e empurrei a dose adentro, num gole só. Não gosto que fique aguado, lhe disse. Ele apenas me sorriu de canto, desviando os olhos noutra direção. O que eu estava fazendo? Não lhe devia explicações, não devia explicações a ninguém! O direito de beber o que quisesse, como quisesse e quantas vezes precisasse cabia somente a mim. Mostrei-lhe a língua. Ele não viu. Mordi o lábio e, cambaleante, resolvi dar uma volta na vida.

As luzes me deixavam tonta. Cega por alguns instantes. O corpo se arrastava, as pálpebras rendiam-se em cada piscar, demorando-se. Acarinhavam meu globo ocular, relaxando meus olhos cansados, vidrados e depois tornavam a se abrir, mostrando aquilo que não queria ver. Ele. Citado desde o começo dessa história. Raiva. Raiva. Raiva. Sempre fico meio desnorteada quando a bebida chega em minha cabeça e senti a língua formigando em minha boca, milhares de palavras pousadas nelas, esperando a oportunidade de alcançar voo. Eu iria me arrepender! Calculei o tamanho do meu arrependimento a medida que ensaiava as passadas para o reencontro. Respirei fundo. Tonteei. Tateei. E, numa jorrada só, elas fugiram.

— Escuta aqui — eu lhe disse — eu amei você, ‘tá legal? Cada pedacinho desse teu corpo recebeu tudo de máximo de amor que sou capaz de dar e, acredite, eu sou capaz de dar muito, muito amor. É, eu sei, também não reconhecia o tamanho dele até arriscar dá-lo todo a você! E tu, o que fez? Usou, amassou e jogou no lixo! Eu não sou mulher de ser posta no lixo e não é você que vai me deixar louca por isso! Tivesse meu coração nas tuas mãos e deverias tê-lo aproveitado melhor e não ter me feito pedir doses atrás de doses de whisky, deixando-me com uma dor de cabeça interminável por semanas seguintes. E se repete. E eu me calo. E eu tô cansada de engolir palavras entre vinhos baratos e cigarros apagados. Não, eu não fumo. Mas você fuma e teus cigarros apagados, já há muito tempo frios, ainda dormem em meu cinzeiro e o isqueiro continua do lado esperando tua volta e tu nunca vem. É. Eu amei você. E agora eu vou embora, amando você um pouco mais. Porque me enlouquece esse teu silêncio de dizer muito, esses teus olhos verdes cheios de malícia e as tuas mãos nos meus cabelos. Me larga! Eu vou. E tchau.

E saí apressada, derrubando um montão de chuva por onde passava. Entrei atropelando a porta de casa, enrolei-me no edredom e permiti desfalecer. Morri enquanto dormia, a vergonha chegando à tona junto com o som de toc-toc, insistente, em minha porta. Levantei meu rosto de ressaca, arrastei o corpo pela sala e abri para a decepção que se seguia. Ele. O sorriso mal-intencionado num rosto perfeito. Teu coração, disse ele estendendo as mãos, trouxe de volta para você. E me entregou num beijo de horas, pôs as mãos em meu cabelo e me aninhou, para dormir. Choveu estrelas em meu colchão. Quando voltei, o sol já havia dado seu bom dia, os lençóis estavam frios.

E vazios.