Não é novidade que todo final de ano colocamos no papel as perdas e as conquistas do ano que está se encerrando. Morbidamente enumeramos todas as vezes que morremos com as perdas irreparáveis e prontamente voltamos à vida com as pequenas vitórias diárias. Contamos nos dedos, um: todas as vezes que tomamos aquele remédio forte para dormir, na esperança de não acordar no dia seguinte; dois: dos choros na madrugada fria, sem ninguém para te escutar e aquecer teus pés gelados; três: as crises de ansiedade provocados pela faculdade ou por aquele emprego chato de 8 horas diárias; quatro: a distância de pessoas que tocam um tango argentino no fundo do nosso coração; cinco: a falta de um grande amor; igualmente enumeramos, seis: a compra daquele livro especial, com o tão sonhado autógrafo; sete: a mudança para a casa nova, com lírios na mesinha de centro perfumando todo o ambiente; oito: o carnaval em que conheceu tanta gente que não caberia nos dedos; nove: que embora todo carnaval tenha seu fim, ele não demora e torna a voltar; e dez: que apesar de todos os desencontros da vida, você cresceu e aprendeu a se amar um pouco mais.

Também não é novidade que todo final de ano anotamos as metas para os próximos 365 dias seguintes, pensando com certo alívio e esperança que o ano termina e, com ele, todas as mazelas e energias negativas, acreditando fielmente que tudo, absolutamente tudo, se renovará com o rompimento deste ciclo pelos fogos de artifício que brilharão no céu. Contidamente, caminharás devagar pela casa no primeiro dia do ano novo, ainda sob efeito da ressaca da virada, e perceberás, não sem tristeza, que nada será novo se não o for.

Talvez note, dentro do impulso vital, que o ano que termina não foi ruim em sua totalidade. É claro que sofreu, que chorou, que a loucura e o desespero estiveram presentes durante dias a fio, que se comoveu com as tragédias coletivas, pelo avião que caiu, pela morte de um ente querido, pela fome e a doença que continua nos cercando, pelo retrocesso político, pela falta de visão de um futuro próspero. Mas também verás que dentro de todas essas quedas e tropeços, o que ficou de você e em você é o mais verdadeiro e humano; que talvez realmente tenha entendido o significado de amor e, sobretudo, do amor próprio; aprendeu que amigo não é aquele que te liga todos os dias, mas o que se presentifica no silêncio; aprendeu que um bom livro e um chocolate quente podem salvar a sua noite de sábado; aprendeu que não precisa de tanta coisa para ser feliz, porque a felicidade é in, vem de dentro para fora; aprendeu que o mar é o melhor dos remédios e que não existe nada mais bonito que o pôr do sol no Arpoador. Talvez tenha aprendido tanta coisa boba e simples que fique difícil contar. É que naturalmente damos mais importância a nossas dores, porque a natureza humana é um pouco autodestrutiva.

Então anota aí no seu caderninho para o ano seguinte: ser feliz, ser bem feliz; atentar mais às conquistas; curtir o verão e uma bela praia, se possível; conhecer o máximo de desconhecidos no carnaval e beijar muitas bocas, porque isso não mede caráter; fazer novos amigos; começar uma faculdade nova ou trocar de emprego; escrever um livro, mesmo que não publique; cuidar das roseiras, principalmente na primavera; ler mais, escutar mais, aprender mais e falar menos; não se prender obcecadamente à dieta, um chocolate quase sempre cai bem; ter fé, não importa em que, em Jesus, Jeová, Tupã ou Oxalá; chorar quando for necessário, porque te torna humano, e sorrir quando for desnecessário, porque contagia; viajar quando a saudade apertar; e, acima de tudo, amar, porque é verdade que ninguém estará completamente perdido se receber e der amor; pelo contrário, talvez seja o único caminho de (se) achar e ser achado…