[Você pode ler este texto ao som de Cannonball]

Será que um dia eu vou me ter de volta? Digo, o cara que eu era antes de você, sabe?

Fico pensando nisso enquanto brinco com o gato no sofá. Não sou mais eu, mas quem eu era também não é meu. A gente nunca é, né? Depois de cruzar a soleira da porta, não tem mais volta. Uma vez que esbarramos em alguém e decidimos ficar um pouco, tudo muda.

Eu já não tenho mais a mesma pele, nem você. Não tenho os mesmos hábitos enlatados, todos na fila dos laticínios do supermercado. Nem lembro qual deles você ainda estoca em casa, qual deles você jogou fora. Você também cortou o glúten, a lactose e um pouco de mim. Parou de beber da fonte, nunca mais me provou. Na sua dieta, ter um pouco de mim é demais. Pesa muito, causa náuseas, você desenvolveu intolerância. Fui riscado da lista.

Você não me devolveu.

O meu dia a dia também não funciona da mesma forma. Antes era uma coisa, era só eu. Depois veio você. Mudei trajeto, te peguei em um ou dos lugares, comi num restaurante horroroso em Pinheiros e até usei aquela expressão brega de “fazer amor” em vez de fuder. Eu queria fuder com você, mas não era só isso. Eu queria terminar e deitar do teu lado, jogar um braço por cima e uma mão nas coxas. Eu queria que você sentisse o mesmo e me bateu um medo tremendo naquela noite porque eu não senti que você pulsava.

Eu já não era o mesmo, tarde demais.

Será que um dia a gente cicatriza? Não o machucado, a gente. Aquela coisa de fechar completamente e viver sem marca, fingindo que continuamos os mesmos. Andando do mesmo jeito, vendo o mundo do mesmo jeito. Contando a nossa história como se você não tivesse acontecido no meio dela. Acho que pra isso, teria que ser meio Clementine, mas não quero te encontrar em Montauk. Acho que não aguento o tranco.

Fico pensando nisso enquanto mudo de canal pra evitar Crepúsculo pela quinta vez na programação dessa semana. Não sou mais eu, mas quem eu era também não é mais seu. A gente sempre deixa de ser, né? Depois de cruzar a soleira da porta, não tem mais volta. Uma vez que esbarramos em alguém e decidimos ir embora, tudo muda.

Esse texto faz parte do meu livro Depois do Fim, que já está nas livrarias de todo o país. Ele fala sobre a nossa vida depois de perder um grande amor e como superar essa perda. Se você gostou desse texto, eu tô deixando três opções com desconto pra você comprar pela internet.

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