Você olhou lá fora? Tem bastante gente na rua, e olha que ainda é um pouco cedo. Deve ser um pouquinho depois das onze, mas há empolgação para a chegada do novo ano. Te digo que não sei se ando das mais otimistas – tantas coisas aconteceram nos últimos doze meses, coisas que envolvem o meu universo particular, o seu mundo paralelo e a situação geral do lugar em que estamos (o qual, diga-se de passagem, está prestes a implodir)… Tantas, inúmeras reviravoltas e golpes de estado e tiros e sangue e toda a sorte de dores espalhadas por entre as matérias dos jornais. Quem é que comemora o quê? Não tenho estômago para comemorações.

Por conta disto tudo, do fluxo contínuo e perturbador dos meus pensamentos, da insegurança que mora ao lado e também da quantidade bastante significativa de bebida que ingeri nas últimas duas horas, confesso que não me anima realmente a possibilidade de ir para o lado de fora caminhar por entre os corpos, disparar fogos de artifício, beijar e abraçar todos os seiscentos e quinze mil cidadãos desesperados por boas notícias que se atiram pelas ruas, um pouco catatônicos, um pouco alcoolizados, ridiculamente esperançosos, absurdamente excitados pela mudança insana que os ponteiros não cansam de prometer. Porque, no fim das contas, é isso: estamos sedentos de coisas que nos façam sentir outra vez aquela certeza de que há motivo. Estamos ávidos por mudanças e, enquanto o mundo caminha ao contrário, erguemos as mãos para o céu e pedimos para que qualquer entidade que esteja entediada dê-nos a sua bênção de dias melhores. São tempos nefastos para os que acreditam e tempos nublados para os que sonham, mas alguém precisa acreditar e alguém precisa sonhar.

Você, com todo o seu idealismo e cabeça erguida, é um sopro de alegria nessa maré de azar. Me agrada deveras a ideia de enroscar as pernas nas suas pernas e de vislumbrar o passar lento do novo ano perdida em braços que não podem me prometer nada além de um calor confortável e passageiro. Eu ouvi promessas, um sem número delas, e boa parte caiu por terra sem que fosse preciso um esforço descomunal para tal. Se te contasse, menina, de todas as coisas que eu ouvi nos últimos 365 dias, você ficaria embasbacada com o quanto eu sou capaz de enganar o meu bom senso em troca da possibilidade de ser surpreendida por alguém que calhei de amar. Não fui surpreendida muitas vezes, não de maneira positiva, mas há uma série de lições a serem aprendidas com os erros e os mal entendidos e com as discussões sem pé ou cabeça e até mesmo com os dedos em riste e os tapas na cara nem-tão-figurativos-assim e eu tenho fé, tenho mesmo, de que um dia conseguirei absorver todo esse conhecimento de mundo sem o filtro do rancor e da decepção.

É engraçado, na verdade, o quanto eu me sinto refém da minha própria ansiedade e da minha vontade de resolver tudo pra todo mundo (enquanto eu, do lado de cá, não consigo fazer o mínimo para colocar a minha vida nos eixos). Já não sei bem que horas são, mas suponho que sejam quase onze e meia e logo haverá o soar das doze badaladas e logo esse ano não voltará nunca, nunca mais e isso é um alívio. Realmente parece que tudo vai começar de novo, mas de uma maneira inteiramente diferente de todos os outros finais de ano – sempre, todo dia 31 de Dezembro, eu sinto que tudo dará uma guinada e que iremos experienciar as delícias de uma vida descomplicada e sem desespero e que enfim entenderemos as razões pelas quais seguramos firme durante tanto tempo, mesmo quando não queríamos mais segurar nada. Sinto que estou sendo um pouco melancólica, talvez um pouco repetitiva também, mas não tem problema. Você acha graça dessa verborragia alcoolizada e isso talvez seja motivado pelo seu estado ligeiramente ébrio também, e de repente estamos rindo e as vozes ficam cada vez mais altas ao lado de fora. Talvez a meia noite esteja mais próxima do que estávamos imaginando e, num surto de não-egoísmo, pergunto a você se lhe agrada sair daqui e trombar com os seiscentos e dezesseis e sei lá quantos mil seres humanos em completo estado de euforia, tesão e medo, etc e tal, e você apenas balança a cabeça e sorri pra mim com um sorriso de dentes brancos e batom vermelho sangue e diz, numa voz que é metade sarro e metade encantamento, que terá tempo para se perder por entre as pessoas durante os próximos meses e que, assustadoramente, lhe agrada a possibilidade de ficar com as pernas entrelaçadas com as minhas enquanto aguardamos, talvez, o apocalipse ou a chegada de algo sem qualquer precedente com a virada do ano mais medíocre que a nossa geração já teve o desprazer de presenciar. E ficamos num silêncio cômodo por alguns muitos minutos a mais e eu penso que olha, não seria ruim, não seria nada ruim mesmo, se o que vem por aí fosse qualquer coisa perto do que é estar nos  braços de alguém que está tão absurdamente sem rumo quanto eu, mas que diferentemente de mim consegue encarar o inevitável como parte de um trajeto que, olha só, pode ser que valha a pena ou que seja um caos absoluto, mas de qualquer jeito é preciso esperar e viver isso. Sabe-se lá de onde vem tanta disposição para manter a cabeça erguida, mas de repente tudo tem o seu lugar no mundo.

E no disparar quase ensurdecedor dos fogos de artifício, percebo que o barulho que mais me atrai (e que se sobressai em meio a todos os outros sons) é o das batidas do seu coração, estranhamente em sincronia com o meu. Não há mais nada além disso. Feliz ano novo.