[Você pode ler este texto ao som de Caçada]

Cê morde e pergunta se eu vi o filme novo de algum diretorzinho-não-sei-o-quê-ele-ganhou-prêmios (como se eu ligasse pra isso), e eu balanço a cabeça afirmativamente pra fingir que eu entendi o que você disse. Deixou marca, viu? Como é que eu vou explicar pra minha chefe uns dentes no braço, uns vermelhos no pescoço, uns vergões na perna sem ter sido espancado? Deixa pra lá, ela nem vai perguntar.

Enquanto você continua numa mania de falar e falar e falar e falar mais um pouco, eu olho pra televisão sem enxergar nada. Talvez eu esteja vesgo agora, mas não dá pra perceber. Dentro da minha casa, a coisa toda roda a mil por hora e eu fico me cobrando as coisas que eu deveria estar fazendo em vez de estar sentado num sofá com você. Tá viajando, num tá? Tô, desculpa. O que você tava falando? Você nunca me dá atenção.

Verdade.

Dou pouca atenção a você nos dias de ressaca quando a pele pede água e falta saliva. O beijo é um cadin mais seco, cê percebe? Nem adianta me afogar numa piscina ou nos teus pelos, a coisa desanda. Preciso é de água. Vou passar um café pra gente, quer? Bora lá. Eu continuo no sofá olhando pra TV e um filme passa na minha cabeça. Como é que a gente se conheceu? Como é que a gente veio parar aqui? O que é que fez com que a gente não rompesse antes? Sei lá. Quando vi, você já conhecia meu porteiro. Conhecia o caminho pra minha casa de praia em Mangaratiba. Conhecia os signos dos meus pais e tinha meu irmão adicionado no Facebook. Conheci meus filmes preferidos e já odiava alguns. Conhecia os memes da Gretchen.

Vez ou outra é assim, sinhô. Chega alguém e fica. Meio folgado, num pede licença, se acomoda na sala, se acomoda no meio das pernas da gente, lambe a nossa cara, lambe a nossa pele, enrosca na nossa língua, confunde lençóis, te cobre no frio, te descobre no fio, te enfia a mão nas coxas, te deixa arrepiado com a barba, te deixa arrepiado com as unhas, te mostra que dá pra se divertir fantasiado no carnaval. Chega perguntando se tu sabe ensinar samba e tu até sabe, mas bate preguiça. Magina ensinar samba pra todo bamba que entra na tua vida, jurando que vai ficar. Daí um dia ele levanta, diz que já sabe o passo, diz que não precisa mais do teu abraço e sai por aí girando o mundo em roda de capoeira sem você. Mas ensinei, sinhô. Ensinei você a ficar.

Fiz café. Oi? Acorda e volta pro mundo, tava pensando em quê? Na gente. Coisa boa não era. Era sim. Era o quê? Você. Então era coisa boa mesmo. Folgado que tu é. Quer com açúcar ou adoçante? Puro. Tá amargo. Sem problemas, tem doce na língua. Tá forte. Bom pra balancear. O que tu tem que tá estranho assim? Tô viajando. Percebi.

Só que ele não percebe. Não percebe que eu tô pianinho porque tô com medo. Sempre que chega nesse estágio da coisa me bate medo. Medo porque não dá voltar mais atrás, medo porque já passei da porta da frente, medo porque é agora que a coisa toda costuma descarrilar. Medo porque eu tô apaixonado por ti, porra, não tá na cara? Tô amando, cacete. Sei lá se tu tá amando, só sei que eu tô. Como é que eu vou explicar pra ele que eu gosto dos dentes no braço, dos vermelhos no pescoço, dos vergões na perna sem me sentir envergonhado? Deixa pra lá, ele nem vai perguntar.

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