[Você pode ler este texto ao som de Bilhete]

Ultimamente sempre me ponho a escrever ao final da tarde, com uma xícara de café com canela bem quente ao lado. Ou tento. É que também ultimamente tenho estado bloqueado para falar um pouco sobre essas coisas que a gente vai sentindo, sentindo, mas não tem nome. Acho que cheguei àquele estado inerte da vida em que as coisas parecem não andar e nada faz muito sentido. Ou se as coisas andam é ladeira abaixo, transformando o pouquinho construído em ruínas.

A verdade é que eu tenho estado bem perdido depois que você se foi. Dia desses estava passando por uma rua em Botafogo e vi um pichação que dizia assim: “qual o nome da sua saudade?”. Quase sentei no meio fio, cigarro na mão direita, lágrimas nos olhos, para dizer o teu nome, sobrenome, endereço e sua indiferença. Há um tempo luto para te esquecer. Mas pensar em te esquecer já é retornar à sua lembrança.

Acredita que ainda hoje não lavei aquela minha blusa favorita que você dormiu nos dias frios em que estive ao seu lado aí na sua cidade? Joguei-a no mais fundo do armário para tentar te deixar também lá no fundo, para que eu não o visse, para que não sentisse seu cheiro entranhado no algodão. Tolice minha! Esqueci que quanto mais fundo eu te jogava, mais para o fundo do meu coração você ia. Acabei fazendo do teu pijama a minha lembrança diária e minha morada.

Chego àquela situação crítica em que percebo, não sem tristeza, que estou para você, e você não está para mim; que movo todos os mundos existentes e inexistentes para estar ao seu lado; desdobro-me em mil; te encontro na minha procura e me perco no teu achado; cuido de ti, ainda que eu esteja longe; te escuto com a maior das empatias; te ligo sempre para desejar boa noite e dizer “olha espero que sonhe comigo esta noite tenho tanta saudade quem sabe ela nos aproxima queria te ver”. Às vezes você me escuta, às vezes nem está do outro lado da linha. Queria tanto que você estivesse ao meu lado para um cafuné, um carinho, um abraço repentino, para comer brigadeiro de panela ou, quem sabe, queria apenas uma ligação só para dizer que você estava passando pela Av. Paulista e um artista de rua tocou a nossa música naquele saxofone gemido.

Tão difícil olhar no espelho cru e dizer “cara, cai na real, pega aquela dose de amor próprio no bar mais próximo e toma”. Mais difícil ainda é ir embora dessa ilusão que eu criei chamada: você. Ir embora para não voltar. Você só me dava a sua superficialidade. Eu já tinha te dado meu oceano inteiro de vivências. Erro meu, eu sei, que mergulhei fundo nessa piscina sem saber se estava cheia. Caí de cabeça e rasguei a testa. Tá uma cicatriz horrível. Logo melhora, não se preocupe. O pior é lidar com a cicatriz do coração. Essa dói bastante, principalmente nos dias frios.

Vou tirar umas férias de você, com sorte serão permanentes. Espero que você seja bem feliz. Quero minha felicidade também, assim como viver de verdade aquele amor que desenhei em aquarela e esperava vivê-lo contigo. Eu sei que essa distância vai doer bastante, que vou chorar como um louco-desesperado durante noites a fio, mas no final desse processo me descobrirei mais forte e mais humano.
Com o tempo a gente aprende que fica quem precisa ficar, que só pode amar quem quer ser amado, aprende a dar e a receber sem cobranças e na mesma medida, aprende o ponto certo do brigadeiro, aprende a dobrar lençol de elástico e aprende, sobretudo, que um café e um amor só servem se estiverem bem quentes.