[Você pode ler este texto ao som de All I Ask]

Em situações extremas em que o palpável foge do nosso controle, temos o costume de alterar a realidade. Logo antes de o mundo desabar na frente dos meus olhos, numa espécie de faca cravada na minha esperança, a única coisa que passava na minha cabeça era o filme daquela quinta-feira de novembro em que a gente se esbarrou na fila do cinema. Sessão das onze, quase ninguém nela.

O flashback passou no exato momento em que eu senti um tiro de calibre incalculável atravessar o meu tímpano. Foi um “ela não ama você” que fez o meu mundo inteiro se desfazer e reconstruir em questão de segundos em uma espécie de purgatório sentimental que se tornou o universo a partir dali.

Tenho um costume particular de lidar com fins. Logo depois de ver tudo acabar, tenho a sensação de que o mundo não vai amanhecer no dia seguinte. Sofro umas três madrugadas, preciso tomar medicamento para dormir. Pareço um zumbi pela nitidez com que as olheiras são vistas de longe. Quatro dias depois está tudo bem, como se eu tivesse esgotado todo o sentimento ruim de uma só vez. No entanto, não consigo perder nenhuma lembrança das memórias.

Inicia então uma viagem particular que passa por cada um dos pedaços do meu peito. Parece que a saudade se acomoda num canto até ser esquecida por ali. Parece que a sensação de que o mundo iria acabar dá lugar a uma supernova que me faz enxergar a realidade de uma outra forma. Parece que as outras pessoas continuam sendo desinteressantes, mas isso vai mudando aos pouco com o tempo. Só não muda a lembrança chata todos os dias.

Me sinto preso em uma comédia sentimental que só diz respeito a mim mesmo. Consigo passar pela tal pessoa sem sentir como se uma arma estivesse engatilhada e apontada pro meu peito, pronta pra rasgar tudo ali dentro. Consigo desejar que a pessoa seja feliz do jeito que sentir que deve ser e que eu tenho que dar jeito nas coisas aqui dentro. Me sinto mais preso ao sentimento que eu cultivava do que a própria pessoa em si.

Ainda assim, me lembro bem do tal filme e da pisada que eu dei no pé dela enquanto a gente saia da sessão. Ela não me ama, mas eu ainda consigo reviver cada um dos momentos dentro da cabeça quando tudo parece longe demais para as minhas mãos alcançarem.

Sobra eu e esse cenário dantesco me prendendo lá atrás.

No fundo, eu só espero que ela encontre alguém para amar. Eu só espero amar alguém novo também.