[Você pode ler este texto ao som de Summer Is Over]

Era amor quando eu comecei a escrever esta carta. Não era mais pra ser, porque é injusto que despedidas ainda possam carregar doses tão grandes assim de amor, mas era. Era amor quando tive que dobrar a folha e jogar na bolsa, ou eu ia começar a chorar no meio daquele café ao lado do meu trabalho e minha chefe podia me encontrar a qualquer momento. E eu guardei você naquele papel como se eu pudesse dobrar também a nossa história e deixar ela pra depois ou nunca mais, mas ainda assim era amor.

Quando meus amigos perguntaram se a gente tinha certeza que tinha acabado. E eu respondi que sim, que era certeza, que não tinha volta, e meu peito doeu porque eu odeio fins. Era amor ali, mesmo que eu tenha dito pra todo mundo que não era mais e que era por isso que tava acabando. Eu não quis dizer pra eles que tinha amor mesmo no final, mesmo enquanto eu guardava seus últimos pertences em uma caixa e escrevia esta carta pra você levar tudo o que tinha deixado em mim.

Era amor às 15h32, quando eu olhei meu celular no meio do trabalho e não tinha mensagem sua. E eu tava tão acostumada a ter você durante o meu dia que doeu de novo, como se a gente fosse acabando várias vezes até acabar de vez. Foi quando eu descobri que a gente vive muitos fins antes do ponto final. E todos eles doem.

No ônibus. Meu Deus, ainda era tanto amor no ônibus que alguém me ofereceu o lugar pra sentar porque eu devia estar encurvada, do jeito que a gente fica quando dói muito. Eu devia estar horrível enquanto tentava segurar o choro porque tava em lugar público e a gente adora fingir que tá tudo bem na frente dos outros. Alguém viu que não tava e eu sentei e encostei a cabeça na janela, doendo muito. Ainda era amor ali.

E enquanto eu escrevo esta carta, sem saber direito como acabar, como é que se agradece uma história sem falar exatamente “obrigada”, porque obrigada nem começaria a explicar o que a gente foi. Ainda é amor nessas últimas palavras e eu vou deixar o amor se prender a cada uma delas, porque eu prefiro que nosso amor se transforme em texto, não em ódio.

E toda vez que eu lembrar de nós dois, mesmo quando não tiver mais amor nenhum em mim, nem em você, talvez eu olhe essa carta e lembre que foi amor. Foi amor até o final.