[Você pode ler este texto ao som de A Noite]

A única coisa que eu conseguia sentir ontem a noite era uma dúvida chata pinicando aqui dentro. Não sei como as coisas vão ser daqui pra frente, mas ainda assim tinha uma certeza de que a gente não é obrigado a carregar ninguém por aí. Ninguém tem obrigação alguma de carregar a gente também. O problema é digerir isso com uma racionalidade que não entra na equação.

Pensei nisso enquanto lembrava de um amigo que adorou a guria e não sentiu abrigo suficiente pra levar ela no peito. Pensei nisso enquanto lembrava dela e do tanto de tempo que a gente não se fala, não foi a mesma coisa da última vez, talvez nunca volte a ser depois de um tempo. O que eu senti foi a sensação chata de estar no meio de uma avenida vazia durante a madrugada, tentando encontrar uma carona para voltar pra casa.

É amargo pra caramba engolir isso. É doloroso pra cacete sentar no meio-fio e ficar esperando o outro carregar a gente pra casa ou atropelar tudo de uma vez. Ficar aguardando e aguardando e aguardando, enquanto o único som audível é o dos ponteiros do relógio fazendo contagem regressiva prum suicídio sentimental. A espera não é escolha da gente, acontece. Acontece de a gente esperar tempo demais e acabar indo a pé sozinhos pra casa. Acontece de o outro aparecer depois de um tempo e salvar a gente.

Acontece que eu só espero.

É confuso pensar desse jeito porque o mundo muda o tempo inteiro. Vai ver a pessoa quis a gente uma vez e o universo inteiro inverteu os ponteiros para ela depois disso. Vai ver a gente esqueceu de perceber a mudança também. Vai ver lá no fim da espera eu perceba que não era pra ser.

O que doía de verdade era a certeza de que eu não teria um pouco dela antes de dormir, não teria foto nenhuma de página de livro dizendo que lembrou de mim, não teria vídeo algum engraçado pra me fazer rir antes de dormir. Não teria coisa nenhuma pra que eu usasse de cobertor e conseguisse enfrentar o frio.

De vez em quando a gente se encontra no meio de uma avenida vazia no meio da madrugada, sentindo frio enquanto percebe os lábios racharem sem saber se vai fazer sol na manhã seguinte ou se a gente volta pra casa antes de o dia nascer. De vez em quando a gente fica esperando o mundo inteiro do outro guinar enquanto tenta digerir que ninguém é obrigado a levar a gente nos braços.

No meio disso, nós sempre sabemos a hora de levantar e procurar o caminho de volta, por mais doloroso que seja. Talvez eu espere até amanhã, talvez eu levante e vá embora logo depois de colocar o ponto final deste texto.

Por enquanto, sou eu e essa estrada vazia. Os lábios já racharam. O vento ficou um pouco mais gelado também. Eu, no meio de tudo isso, só espero ela me salvar.