[Você pode ler este texto ao som de The Fault In Our Stars]

A tortura mais dolorosa pra mim sempre foi a de lembrar e querer tanto alguém que não se pode ter a ponto de fazer o próprio universo girar em torno da tal pessoa. Perdi noites e mais noites de sono planejando uma série de encontros que nunca aconteceram, vi o mundo inteiro escorrer por entre os dedos e acreditei tanto em uma fé particular de que as coisas um dia voltariam para o lugar que uma hora passou. Esperei tanto o tempo passar enquanto encarava o mundo correr na frente dos meus olhos que o sentimento passou também.

Das noites mal dormidas, das viagens para a faculdade com o rosto escorado no vidro do ônibus, das horas de trabalho perdidas com o queixo apoiado na palma da mão e os olhos encarando o nada, das madrugadas viradas pesquisando para economizar no valor da passagem, a única coisa que sobrou foi um corpo que já não abriga a mesma pessoa.

É engraçado pensar desse modo porque parece que a gente deixa de ser a gente quando percebe a mudança. Foi um pouco de troca de hábitos, troca de planos para o fim de semana, troca de pessoas com as quais dividir alguma coisa num fim de domingo, troca de rotina quando eu percebi que o mundo parecia programado demais.

De uns meses para cá eu já não consigo pensar nela como pensava antes. Não penso em pegar o carro e encontrar ela na saída da faculdade, não penso em virar madrugada escrevendo uma carta bonita pra lembrar alguém da minha existência. Não penso mais em ajustar a agenda porque eu sei que nunca vai haver espaço pra mim do lado de lá. Penso um bocado menos nela, para falar a verdade. Penso um bocado mais em mim também.

No meio dessa troca lenta de vida, entre o gostar tanto de alguém e o voltar a gostar mais um pouco de si, eu ainda lembro dela toda noite enquanto volto pra casa. Lembro dos encontros no meio da tarde, lembro das manhãs de outono que a gente dividiu no meio da selva de pedra. Lembro de uma série de coisas que deixaram de ser palpáveis e de fazer parte daquilo o que eu quero para mim daqui pra frente. Lembro que talvez eu não queira nada de volta também.

Hoje eu tô voltando pra casa. Tô voltando a ser um pouco mais meu depois de tentar emprestar uma versão melhor de mim para alguém lá fora.

A gente perde vidas demais se esforçando para sermos pessoas boas para os outros enquanto deixamos de ser bons para nós mesmos. Hoje eu sou um pouco melhor pra mim. Hoje eu seguro na mão do mundo e corro com ele por aí, sem essa insistência chata de esperar e esperar e esperar só mais um pouco por alguém que me esqueceu lá atrás.