[Você pode ler este texto ao som de Believe]

Apesar da xícara quebrada que cê deixou pouco antes de ir e que agora eu uso pra tomar café fraco porque cafés fortes me lembram de você. E o gosto amargo que fica sempre que alguma coisa acaba do jeito torto que a gente acabou. Ou pior: o agridoce que ficava em mim quando você ainda tava aqui, mas nunca esteve de verdade.

As mensagens lá do início que você não respondeu. Lembra? Você queria fazer joguinho e ser aquele que gostava menos na relação. Fui eu que gostei mais, de qualquer jeito. Não foi? Às vezes, tenho essa certeza triste de que foi uma via de mão única. É horrível quando acaba e a gente percebe que amou sozinho.

Apesar daquelas noites em que você não queria sair porque tava cansado, tava com sono, tinha trabalhado demais. E eu fui surpreendida com mensagens no meio da madrugada de gente me contando que cê tava num bar qualquer com seus amigos. Nunca mais ia acontecer de novo, você me dizia. Até que, duas semanas depois, sempre acontecia.

Mesmo que eu nunca tenha sido o suficiente – por causa da minha altura, do meu peso, das minhas roupas, do meu jeito de me arrumar, do curso que eu fazia na faculdade ou qualquer outra desculpa que cê arranjava pra me diminuir. E eu me amando menos dia após dia numa ilusão de que aquilo era te amar. Que coisa doentia você me jurar que aquilo tudo era amor.

Apesar das tempestades que você trouxe pra dentro de mim e do jeito que passou como um furacão no meu peito levando tudo do pouco que eu ainda tinha inteiro. Apesar das inseguranças que você deixou, do meu medo de voltar a confiar em alguém e de, vez em quando, fingir que nada daquilo aconteceu comigo.

E de todas as vezes que eu sufoquei as minhas dores e soquei minhas desilusões no peito pra te fazer feliz – porque você me fez achar que era assim que se amava. Apesar da destruição toda que cê deixou e de me fazer sentir uma das coisas mais tristes que eu já tive que sentir: como se me amar fosse quase impossível. Mesmo que você tenha se aproveitado da minha ingenuidade de lhe dar meu coração e do meu cuidado e do meu carinho e da minha dedicação.

Ainda assim, fica tranquilo, eu vou amar de novo. Um dia desses, amanhã ou daqui a vinte anos. Quando as feridas que cê deixou começarem a cicatrizar: ainda que você me ache louca, eu vou insistir em amar outra vez.

Porque, depois de tudo, se tem uma coisa que eu sei é isso: não tinha nada de errado comigo. Quem tinha muito de errado era você.