Era conhecida como Lou, tal qual o Reed mais famoso, apelido dado por um magrelo rapaz roqueiro que passava os finais de semana no quintal exibindo sua calça de Robert Plant; tatuada, o desenho, dentre muitas outras espalhadas no seu corpo, que motivou o rapaz a chamá-la assim era um Walk On The Wild Side escrito em letra cursiva, traço fino e tinta preta, na costela, lado direito, delicadeza contrastante com o título da música, porém, compreensível quando se assobia a melodia. E ela era fã de Lou Reed mesmo.

Estávamos em seu quarto recheado de pôsteres sobre musica e cinema; destacavam-se dois: um era a icônica capa idealizada pelo Andy Warhol para o Velvet Underground & Nico e uma de Kill Bill, somente o nome do filme, com fundo amarelo e um rastro de sangue indicando que o corte foi feito por uma lâmina.

Lou era toda tatuada. Eu gosto das meninas tatuadas, oh, sim, eu gosto. Na pele as nuances da própria vida, os contornos adquiridos pela experiência, o desejo mais sublime num único traço reto horizontal que pode parecer solto à primeira vista, mas esse minimalismo dialoga com o próprio olhar, e fazem uma pessoa a ser descoberta. E cada linha dessas, cada uma de suas contínuas linhas pigmentadas com a cor que escolhida, gera um misto de admiração e êxtase, como se apreciasse um Monet, Van Gogh, Tarsila e tantos outros. Além disso, As meninas tatuadas surgem desafiadoras com suas quebras de padrões de pensamentos estagnados, como que com um gigantesco dedo do meio na fuça daqueles que amam bater o martelo sentenciando alguém a partir da sua própria visão estereotipada.

Ela entrou meio doo do doo do doo do doo do, trajando uma regata comprida que ia além do quadril e tinha cavas longas nas laterais, estampada com a tradicional língua dos Rolling Stones, e nada além. Eu estava lá na cama doo do doo do doo do doo do.

[Stop, oh, oh, stop me: E ouçam as músicas a partir de agora para acompanhar a leitura] Embalamo-nos.

[Femme Fatale] As tatuagens visíveis, principalmente a Catrina na coxa direita, colorida por tons de verde, azul, magenta e preto; era a minha suicide girl. Ela me empurra para a cama e sobe em mim, prendendo apenas os cabelos, e sem fazer qualquer outro movimento, deixando-se apenas ser admirada. Via cada ponto de sua pele pigmentada: as rosas em seu ombro esquerdo, uma frase em uma língua que não compreendia disposta de maneira vertical, flechas intercaladas na parte interna do antebraço; no braço direito o ombro nu, mas três grandes tatuagens old school, uma delas com um 13 bem evidente; não via muito bem a frase que originou seu apelido, porém, notava onde estava. Uma frase tão poderosa que parecia pulsar, refletindo quase que por completo sua personalidade. Sem falar nada, ela apoiou as duas mãos sobre mim; cada dedo seu levava uma letra, com exceção ao dedão: a mão direita formava SOUL e a esquerda LOVE.

[Heroin] Observava-me de cima para baixo. Dominadora e dominado. Eu sinto seu corpo sem sequer ter tirado uma única peça de roupa. Passo a mão em suas coxas e a percorro por dentro da regata. Minha respiração fica ofegante, há uma evidente euforia pelo momento; ao contrário de mim, ela se mostra num estado de torpor, uma feição que se desmancha num sorriso malicioso e olhos fechados. Tinha meu corpo como seu pouso. Aos meus olhos, aquela imagem se mantém estática, mesmo que minhas mãos não permanecessem um segundo no mesmo lugar – eu a desenhava, eu a esculpia, eu a fazia tão minha que escorria em meus dedos. E ela se curva sobre mim, ela se curva para me tocar os lábios com os seus. Sinto seus lábios molhados, macios, c o c a í n i c os. Epinefrina salivada, corrente sanguínea. Língua como agulha. Sinapses impulsos nervosos neurotransmissores. O que era? O que era?  I n t e n s o  s e m  s e n s o  o  m o v i m e n t o  s i n t o  r e s s i n t o  n ã o  p e n s o  n ã o  v e j o  n e m  m e ç o  o  d e s c o m p a s s o  d o  m e u  c o r a ç ã o  e s p e r o  n ã o  m o r r e r  f o d a s e  m e  e n t r e g o  t u a  p e l e  m e u  m u n d o  d e s n u d o.

[Satellite of Love] Os corpos se descobrem; as cores se fundem. Opostos complementares. Os cabelos, agora soltos, caem sobre seu rosto, e eu os retiro delicadamente de seu rosto, enquanto ela sorri. Há uma sincronia e sintonia natural, uma dança bem afinada. O sol invade o quarto pelas frestas deixadas pela persiana e projeta nossa sombra na parede de forma fragmentada; este raio de sol bate diretamente no rosto dela parecendo clarear ainda mais o tom âmbar de sua íris, além disso, esquenta-nos sem incomodar, apenas o suficiente para gerar um pouco mais de suor, sem que pareça jorrar pela pele, ainda que nos faça um pouco escorregadios, o que ocasiona algumas risadas quando tentamos firmar algumas pegadas e deixa o lençol levemente manchado, sendo possível identificar com uma quase noventa por cento de acerto a parte do corpo que ali estava. Eu sempre a quis assim, e toda a sorte que imaginação permitisse – e o permitir ao ler: por cima de mim, de lado, de bruços, ao contrário. Queria até o seu avesso e o seu eu mais íntimo se assim pudesse, afinal, já tão exposta de dentro para fora, seus anseios já não me metiam medo, quiçá me faziam desafiado: confortava-me sabe-los. E seu gozo, seu desejo por mim, fazia-me querer passar o dia naquele momento, continuar até que o a finitude da vida nos alcançasse. Ela me fazia continuar e eu continuaria. E imparáveis, explodimos.

[Perfect Day] Um sussurro no ouvido me acalenta. Ela se deita, então, sobre meu ombro esquerdo e sorri mais uma vez aquele sorriso menos enigmático e mais verdadeiro que já tinha visto. Suas tatuagens ganham ainda mais cor quando extasiada. Sua perna direita entrelaça-se com a minha; a mão com SOUL descansa sobre o meu peito. Vulneráveis como nunca estivemos, sem a ânsia diária de querer mais e mais, bastávamo-nos. Havia a perfeição em cada centésimo de segundo daquele instante como em cada poro de sua derme. Adormecer era opção, mas e o medo de fechar os olhos e a perder? Não resisti, no entanto.

[Walk On the Wild Side] Fui despertado pelo celular vibrando na cômoda ao lado da minha cama: “Ai, porra, foi um sonho…”, lamentei. Na tela, uma mensagem da Lou: “O q tá fazendo? Tô em casa ouvindo o Reed… vem aqui”. Déjà-vu? Doo do doo do doo do doo do.