[Você pode ler este texto ao som de Closer]

São três horas da manhã, mas vamos beber no sofá de casa enquanto ouvimos Kings of Leon? Claro que sim. Vamos sair para dar uma volta por São Paulo e admirar as belezas da noite em uma terra que parece que se nega a dormir? Vou de tênis para garantir. Vamos, não sei, chorar abraçados enquanto refletimos sobre o peso da existência e sobre a automatização do ser humano? É um programa deprimente, mas bem, tô dentro. Você não é uma pessoa difícil de agradar, num geral, não é? É, é verdade.

Sou facilmente levada pelas boas ideias e me atiro de cabeça em qualquer convite que me pareça terrivelmente delicioso, trágico, gentil ou sensual. Sou uma pessoa de paixões. Gosto do que sacode a rotina, estremece minhas coxas ou transforma em pó todas as minhas percepções. Gosto da surpresa, do não-plano, do vamos-ver-o-que-é-que-dá – de nada me vale saber o que vai acontecer, até mesmo porque eu detesto antecipação. Eu sou extremamente ansiosa, no entanto, e isso é bastante paradoxal: é um misto de vontade de aproveitar e sugar e esmiuçar cada coisa que vier, mas uma ojeriza à ideia de saber o que é que virá. Me entende? Não precisa entender. É uma espécie de piada cósmica, como disse o diabo do Al Pacino naquele filme que eu adoro. Ainda assim, controlo minhas controvérsias e afirmo: de improviso é mais gostoso. Pense assim: comprei um vinho há pouco e deixei na geladeira. Talvez eu beba só, talvez eu divida com o menino que mora comigo, talvez eu despeje o vinho em alguém e beba assim, furiosa, nervosa, ao som de Kings of Leon; quem é que sabe? O vinho está lá, é o que está dado. As condições são favoráveis. De qualquer maneira, eu saio ganhando. Não é um belo jeito de ver o mundo?

Desculpe trocar assim de assunto tão rápido, mas sabe, eu tenho pensado muito em como estamos tornando as nossas relações previsíveis e, por isso, chatas para cacete. É muito roteiro pra seguir, muito script pra cumprir. Onde fica o nosso espaço de criação? Onde ficam as nossas tentativas? Gosto das falhas e gosto de gente incoerente e de gente que tenta, erra e continua tentando. Gosto de derrubar vinho no sofá da sala e ficar de-ses-pe-ra-da pra tirar a mancha enquanto rio, rio de doer a barriga. Gosto de começar pelo final e de terminar vendo Júpiter beijar Vênus num apartamentinho aconchegante em algum lugar longe da civilização. Gosto de seguir o ritmo, de perder o controle das horas, de sentir a veia do pescoço pulsar contra os meus dedos, de conhecer e descobrir e entender coisas que não são ditas, só sentidas e percebidas por toque, por cheiro, por tremores. Gosto do humano, que não é um diagrama e não é uma equação e não pode ser subtraído ou multiplicado. Gosto de ser horrível em matemática. São muitas coisas ao mesmo tempo. O que sei é que me agrada ser firme na minha inconsistência: tudo o que é sólido desmancha no ar, não é o que falam por aí? O contexto é outro, mas que se dane. Sigo impune.