Desculpa, mas eu vou embora. Foi ontem que decidi partir e eu preciso arrumar minhas coisas para sair antes que mude de ideia – outra vez. Por favor, aceita. Eu já guardei as mágoas, as saudades e os planos dentro da mala, junto com algumas roupas usadas e uma camiseta tua. Não, não me olha com esses olhinhos brilhantes, por favor! Eu resolvi mesmo partir. Na verdade, eu venho ensaiando a minha partida desde o dia que te conheci, mas fiquei nos enganando porque eu não queria dar adeus assim, tão logo. Talvez eu parta antes mesmo de chegar. E me desculpa por isso.

O trem saiu do trilho assim que meu olhar cruzou no teu. Todos os planos, sonhos e expectativas foram largados numa gaveta qualquer, amassados e escondidos entre papéis de bala, poemas amarelos e fotografias antigas. Eu esqueci quem eu estava sendo e me envolvi demais nesse novo jeito de ser. Fluía naturalmente, como algo óbvio. Eu me rendi e fui me rendendo, dia após dia. O riso fixou-se no canto dos lábios. As mãos ficaram trêmulas vezenquando. E eu me vi amando essa nova versão de mim que carrega tanto de ti.

Tá doendo demais do lado de cá, mas a decisão está tomada. N’outros tempos, talvez eu estendesse uma colcha no gramado e te chamasse para admirar as estrelas. N’outros tempos, talvez eu não me importasse em ficar pelo tempo que fosse. N’outros tempos, talvez eu te cedesse o colo e ficasse te fazendo cafuné, até você dormir. Mas eu decidi que não quero mais uma hora contigo, porque me permitir um pouco seria abrir brecha para querer ficar mais – e eu não preciso de mais motivos para ficar.

Eu podia me apaixonar por você se quisesse. Talvez eu esteja um pouco apaixonada, mas conto mentiras demais para mim todos os dias. Te levo num riso despretensioso e cheio de malícias, mas vou driblando o sentir quando o sentir é grande. Pincelei cores para uma amizade bonita e só. Acredito que esteja mentindo para mim quando friso o ‘só’. Então, antes que descomplique – ou complique ainda mais – eu decidi ir embora.

Vou levar tudo de você comigo. O riso, as músicas, o doce. O beijo roubado no meio da rua, entre um abraço apertado e outro puxão para perto. Vou te guardar do lado mais lindo do coração e te esquecer ali. Talvez eu sofra um pouquinho e talvez eu queira mesmo sofrer, que é para criar uma fina cicatriz que me lembre você, quando não tiver mais você por perto. Talvez eu passe a odiar todas as memórias e jogue fora tudo que é tão teu. O ódio é um meio de continuar sentindo amor, não é?

Eu tinha ensaiado tudo, vê? Meu discurso estava pronto e decorado, meus olhos doutrinados a voar para qualquer canto longe do teu. E agora eu estou aqui, falando de um monte de talvez, porque talvez eu não saiba mais de nada. Desculpa, mas eu vou embora. Foi ontem que decidi partir e eu preciso arrumar minhas coisas para sair antes que mude de ideia – outra vez. Eu já guardei saudades e planos dentro da mala, junto com algumas roupas usadas e uma camiseta tua. Não, não me olha com esses olhinhos brilhantes, por favor! Eu resolvi mesmo partir.

Mas, se você pedir ‘fica’, talvez eu fique.