[Você pode ler este texto ao som de Ghost Towns]

Como eu te amei, meu Deus. Nas tardes quentes e nas noites frias, no seu melhor e no seu pior. Te amei quando você gritava comigo e quando me sussurrava besteiras nos ouvidos, quando me chamava por qualquer apelido bobo e até mesmo quando a bebida falava por você e eu queria raspar a sua cara na parede.

(Lembra quando tudo parecia terrivelmente lindo e nós dois parecíamos ter saído de algum livro adolescente? Eu me sentia bonita quando o vento batia nos meus cabelos lá do décimo oitavo andar do seu apartamento. Sabe no que eu me pego pensando sempre? Que a sua casa cheirava à incenso indiano e comida de microondas e eu tinha o cheiro do seu sabonete líquido preferido e sentia como se o sol estivesse estacionado no meu peito o tempo todo.)

Como eu te amei naqueles dias em que a gente andava sem rumo debaixo de um sol de rachar e falava da vida, das pessoas, dos sonhos, dos aviões, dos nossos cães, dos filmes, das músicas, dos homens, dos deuses e falava de tanto mais que acabava não falando nada com nada e não tinha problema porque a importância da coisa era só trocar frases longas e reafirmar imensidões nas entrelinhas. Sua dicção perfeita, meu sotaque chiado, meu Baudelaire e o seu Lovecraft e a gente fazendo troça das preferências um do outro apesar de sabermos que tínhamos os dois muito bom gosto. Meu Baudelaire que ficou na estante da sua sala e deve estar cheio de poeira porque você não deve ter vontade de tocar em nada que se pareça comigo.

(Eu lembro também da sua mania de conferir a validade de qualquer coisa que fosse comer e lembro de você dizendo que queria muito ser saudável enquanto comia uma mistura de grãos e leveduras e separava o dinheiro para comprar cigarro. Você tinha uma colônia que não combinava nada com os cigarros que você fumava, mas eu nunca te disse – até agora. Não faz mal. Eu gostava. Juro. Possivelmente era a única, mas taí: eu gostava.)

Como eu te amava do primeiro ao último andar e como eu quis me jogar de lá de cima, aproveitando as janelas sempre abertas da sua salinha de estar, quando você enrolou a língua com a vodca e me disse mil e uma, uma e mil razões pelas quais eu e você não éramos para ser qualquer coisa que não um romance de livreto com hora pra acabar. Eu quase pedi para você conferir a minha validade, mas fiquei quieta. Não sei porque não pedi. Eu deveria ter pedido. Talvez você tivesse gargalhado e me beijado e pedido desculpas, mas eu não disse nada. Você me deu três cigarros pra eu fumar minhas mágoas longe da sua casa e eu reuni minhas bugigangas naquela sua mochilinha que eu nunca vou devolver porque gosto muito dela. Como eu te amei quando você me citou aquela letra do Marcelo Jeneci que hoje me parece a maior estupidez e a maior verdade de todas.

(Eu me lembro de você com o ombro encostado na porta do quarto e engasgando no choro enquanto cantava que a gente é feito pra acabar, ah, a gente é feito pra dizer que sim – e eu cantava de volta, engasgando também, mas no meu orgulho. Eu chorei depois, no ponto de ônibus, chamando a atenção de uma senhorinha que me disse pra ficar calma porque tudo passa, tudo termina. E a desgraçada da mulher estava certa. Estava tudo mesmo no fim.)

A gente é feito pra acabar. E acabou.