Tô bem, rapaz, não se aborreça. Não sou do tipo de pessoa que te quer triste porque você não me quer. Admito que faço certo esforço para não parecer um pouco desajustado toda vez que você passa por aqui, especialmente quando seus dedos estão presos em outros dedos, mas: não estou mal. Não estou com raiva, tampouco. Não há qualquer coisa em você que me dê coisas ruins – você é feito de belezas, da cabeça aos pés, e cada cacho do seu cabelo me desperta toda sorte de paixões

Não me faria bem vê-lo em prantos; muito me agrada esse seu sorriso de canto, essa sua voz deleitada, as suas pupilas grandes de excitação. Observo com as pernas cruzadas a forma como as suas mãos enormes capturam outras madeixas e engulo em seco, bebericando de um copo meio vazio, imaginando como deve ser o seu toque. Você tem cara de amante que demora, sabe? Desses que leva tempo sentindo cheiro, marcando território, rasgando a alma depois de rasgar a roupa. Você não tem cara de que faz as coisas para cumprir tabela, convenção, obrigação social, e isso tudo me agrada. Que você dê ao seu moço essas coisas todas e que não pense em mim um minuto sequer. Não há razão para tal e seria de uma baixeza ímpar desejar que a sua atenção estivesse em qualquer outro lugar senão nas curvas dos quadris dele, na vermelhidão de suas bochechas, no calor entre suas coxas.

Não faz mal, juro. O que eu tenho de você, na minha cabeça, é suficientemente agradável para me manter aquecido por umas tantas noites geladas. Me basta lembrar, de vez em quando, da noite em que sentamos para olhar o fogo crepitar e lá ficamos, num silêncio calmo, sem qualquer intenção senão a de ver o fogo crepitar. As chamas nos seus olhos, as suas mãos estendidas em busca de calor, a forma como você fechou todos os botões do casaco, menos o último – cada detalhe seu, veja, ficou gravado. É o bastante.

No fim, você nunca me fez crer que haveria qualquer chance de interação entre nossos corpos além de um ou outro beijo no rosto. Talvez um afago no pescoço, uma mão depositada sobre o ombro, um abraço gentil de despedida, quando muito – nunca lhe pedi mais e não é agora que o farei. Rogo, no entanto, que permita que esse tal desse moço (é bonito, ele, até!) mate a minha vontade de encher a sua boca volumosa de mordidas, o seu rosto de beijos e o seu corpo, esse corpo que me deixa meio sem rumo, de lembranças. Que ele lhe dê memórias para se lembrar por toda a vida. É o que eu faria, mas isso não é nada demais. Quem é que não gostaria de lhe dar mundos e fundos, rapaz?

Tô bem, prometo pra você. Você contente é um afago em mim. Eu amo o teu moço por osmose – é essa a palavra certa? -, então vai ficar tudo bem. Amor de verdade não é assim?