Tô quieto demais pra quem tá tentando fazer o mundo virar do avesso pelo menos dessa vez. Eu já tentei de tudo, tentei correr dez quilômetros por dia no fim de tarde pra ver se a coisa toda passava ou ia embora junto com as gotas de suor, já entreguei os pontos me jogando numa valeta às cinco da manhã e fiz a cabeça girar por conta de uns goles de vodca importada; pelo menos até a manhã seguinte, pelo menos até amanhã de manhã, pelo menos até eu esquecer o porquê da brasa no peito.

Hoje foi um daqueles dias em que tudo o que eu fiz deu errado. Seria melhor ter fingido uma dor de cabeça na hora de levantar, ter sentido tontura ou qualquer coisa dessas que desequilibram a gente e fazem jogar a toalha. A cada hora era um fato novo, um problema diferente que brotava na minha frente e eu pensei que tivesse acordado com uma alergia brava à vida. E não sabia se jogava minhas coisas todas pro alto e fugia pela tangente, se largava tudo e corria pra tua casa pra ver se encontrava um abrigo provisório no teu colo que desse jeito nesse turbilhão de coisas brotando do chão.

Bati os sapatos no tapete da entrada antes de entrar em casa porque eu tenho medo de sujar as coisas aqui dentro com os problemas do mundo lá fora. Acho que esse é um problema meu e de toda essa gente, ter que conviver com o mundo batendo na gente lá fora e um abrigo vulnerável aqui dentro por não ter quem se ama do lado.

Mas tá tudo bem, já fiz minha prece e logo eu pego no sono, amanhã de manhã a coisa toda deve estar um pouco mais leve, só acho que tô quieto demais. Pelo menos hoje eu tô sentindo alguma coisa, tô me sentindo um pouco mais humano. Pelo menos o dia acabou e eu posso deitar com a cabeça no travesseiro pra sentir o peso todo pressionando e apertando dentro do peito. Acho que acordei com uma alergia brava à vida. Acho que esse é um problema meu e de toda essa gente, ter que conviver com o mundo batendo na gente lá fora e um abrigo vulnerável aqui dentro por não ter você. Talvez por isso eu não enxergue nada, não sinta nada, não ouça nada além das coisas todas do meu mundo. Quieto demais.