[Você pode ler este texto ao som de Up In Flames]

Você sorri. Eu reúno minhas forças e vou para o outro lado do bar, chego em sua frente e fico tímida, sem saber se tenho direito de pular em seu pescoço e te abraçar como naquele tempo em que eu sabia tudo sobre você. É que a verdade é que eu não sei. Não sei se tenho certas liberdades só por um dia ter te conhecido demais, só por ter sido eu a dividir contigo todas aquelas dores, por ter sido apoio e carinho e cuidado e respeito e amizade. Por ter sido amor lá atrás, sabe? E, de repente, eu me toco que ter te amado não faz diferença. É uma droga, mas você é tão desconhecido quanto qualquer outro com quem eu esbarro na rua.

Eu pergunto da sua viagem, do seu cachorro, do seu novo trabalho que vi no Facebook e da sua irmã. Você me pergunta se eu ainda escrevo – escrevo, escrevi cem textos sobre você. E então me chama pra tomar uma cerveja, como se algumas horas jogando conversa fora fossem suficientes pra gente se reencontrar no tempo. Naquela época em que te amar era óbvio – era uma das poucas coisas que eu sabia fazer bem. Ah, que bom seria se grandes amores não escapassem pelos nossos dedos. Não é?

Você continua o mesmo, mas alguma coisa mudou. Não é mais natural, nem simples, nem fácil. Tenho que pensar em cada vírgula falada – porque alguma coisa fica no meio depois que a gente vai embora do outro. Alguma coisa ficou entre nós quando acabou – a vida, o tempo, o que te aconteceu e o tanto de coisa que passou na minha vida. Uma barreira invisível que me faz forçar risadas e olhar o relógio meia dúzia de vezes, até chegar a hora de dizer que preciso ir, que tô com um monte de coisa pra fazer em casa, que você pode me ligar qualquer hora, que senti pra caralho a sua falta.

Não é nada mentira, mas também não é nada completamente verdade.

Você me diz que eu tô igual, mas eu sei que sabe que eu não tô. Eu finalmente te abraço, e um filme passa na minha cabeça. Não te falo nada – não tem mais sentido. Mas uma parte de mim queria saber se é isso mesmo o que acontece quando cada um segue o próprio caminho. Se, depois que a gente vai embora da vida do outro, só resta a lembrança de quem a gente era. E um não sabe muito mais sobre a pessoa em que o outro se tornou.

Pego minha bolsa, minhas memórias, as saudades que eu senti quando você se foi e o sentimento bom que fica no peito por saber que você tá bem, e vou embora. Vou ali continuar o caminho em que virei pra longe de você. Acabou. Vejo isso no reencontro. Talvez a gente precisasse disso pra encerrar.

E aí você sorri. Eu sorrio de volta.

Mas nossos sorrisos não se encaixam mais.