[Você pode ler este texto ao som de I Can’t Let Go]

Eu nunca fui capaz de entender o maldito ponto-e-vírgula.

Passei ileso pelo tormento das regras da crase, entrei e saí sem me perder do labirinto dos porquês e juro que aprendi sem decorar todos os usos do haver no sentido de existir. Mas o ponto-e-vírgula nunca entrou na minha cabeça.

Ignorei por anos esse calcanhar de Aquiles, evitando-o o quanto podia. Fora isso, acho que foi da facilidade que eu tinha com as palavras (e dos livros que já estão transbordando pelas estantes daqui de casa) que nasceu a minha vontade de ser escritor. Eu queria contar histórias, ver meu nome na lapela de livros espalhados pelas livrarias mundo afora. Mas a inspiração e a vontade são irmãs geniosas que raramente andam juntas.

Minha frustração acabou quando minha boca encostou na tua pela primeira vez. Escrever passou a ser fácil agora que eu tinha um motivo. Foi do seu lado que eu encontrei a inspiração necessária poemas impublicáveis os maiores épicos que só aconteceram na minha cabeça. Você respira e eu me inspiro.

Com o tempo, percebi que estava escrevendo nós dois. Todas as minhas palavras, escrevi com o coração na ponta dos dedos batendo em cada tecla e assinando cada página com o sorriso que você deixava no meu rosto. Só não previ, no entanto, que chegaria o momento de contar o final dessa história. Puseram um final prematuro em nós dois e eu simplesmente não conseguia continuar.

E foi então que eu finalmente entendi o uso do ponto-e-vírgula.

O ponto-e-vírgula é usado quando o autor poderia ter dado um fim, um ponto final, mas opta por continuar escrevendo. E te digo que, no que depender de mim, vou seguir debruçado sobre a velha Olivetti 25 para que fiquemos assim, inacabados;