O cheiro da camiseta que eu guardei. Senti-o ontem pela última vez antes de, finalmente, tomar coragem para mandar a peça para outra freguesia. Que vá com amor, murmurei para mim. Que vá e acalente quem esteja precisado de um pouco de calor humano.

A memória do seu corpo frio; meus lábios contra a sua testa inerte. Acho que cheguei a pensar em pedir para que você me oferecesse um derradeiro sorriso, mas me calei. A memória da minha boca trêmula na sua bochecha dura. A percepção de que aquilo era só matéria, e matéria nunca foi você.

O sorvete de chocolate bem amargo que eu nunca mais quis comer. A injeção de insulina que ficou guardada na geladeira. As agulhas sobre a bancada da cozinha. O bibelô de cachorrinho na estante da minha sala de estar. As mensagens que eu não apaguei da memória do meu telefone (ainda leio e finjo que foi ontem que você me mandou). Sua voz na minha cabeça. Suas sandálias de aro grosso. Seu número da sorte, que agora eu vejo nas horas, nas placas, nas casas – em tudo. O jogo do seu time na televisão e a forma como futebol hoje me parece a coisa mais interessante do mundo. Sua caixa abarrotada de remédios. A receita da quimioterapia. O lado da cama que ficou fundo com o peso do seu corpo. Sua carteira de documentos. Seu cartão do metrô. Ficou tudo, menos você. Fiquei eu, dizem, mas às vezes eu não tenho certeza.

Oito meses para dar adeus a quem eu amei por vinte e quatro anos. A rigidez da morte e o escárnio da vida que se obriga a continuar. Ficou a tatuagem que eu fiz pra você, também, e ela ainda me guia quando eu estou em dias como este aqui. Como me faz falta o silêncio que havia entre nós, e como me açoita a vontade de caminhar com você e te ouvir reclamar de como São Paulo me fez andar rápido demais.  Sinto falta de quando você discutia comigo e me dizia absurdos só para me ouvir retrucar. Mamãe disse que você falou pra ela que gostava de me ver aborrecida porque era quando eu mais falava e mais puxava argumentos do âmago do meu útero – você se divertia com isso, ela me disse. Você ficava orgulhoso de ver sua menina cheia de palavras e buscando formas de encadear pensamentos. Como você tinha orgulho, e eu nem acho que eu mereça tanta coisa assim. Fico grata, de qualquer forma, pelas vezes em que você gostou mais de mim do que eu (e não foram poucas – acho que foram todas).

Suas cinzas na cachoeira. Você dançando nas águas do mundo. Não havia outra forma de te dizer adeus – você não nasceu pra ficar preso a um corpo que apodrece na terra, não. Você não está na camiseta, no sorvete, na injeção de insulina. Você não está nas sandálias de aro grosso, tampouco nas agulhas que ficaram sobre a bancada da cozinha. Essas coisas são tentativas minhas de te prender a um lugar aonde você não pertence, e pouco a pouco eu me convenço mais disso. Amar você é deixar você ir.

Você é vida que flui e eu, por ora, sou vida que fica. Um dia desses, sabe-se lá quando, espero fluir com você rio afora. Em paz.

Em memória do meu pai, Celson Del Rosso.