É culpa dela. Aquele sorriso bobo que dei no meio do nosso jogo de domingo. Você não entendeu, e nem podia, mas eu tava lembrando da forma que ela sorri com os olhos e aí não resisti. Sabe quando a gente encontra alguém e os outros amores deixam de fazer sentido? Pode ser paixão ou idiotice, mas aconteceu. É oficial: virei um desses caras. Mas, te juro, a culpa não é minha. A culpa é dela, amigo.

Vou ter que cancelar aqueles nossos bares de quinta. A gente muda pra quarta e já vê o futebol, combinado? É que é o único dia que ela tá livre na semana. Cê entende, não entende? Quando a gente se apaixona, a gente sente umas saudades estranhas, cara. Ficar muito tempo longe, às vezes, até dói.

Disseram que ando meio adolescente, mas não tem como acordar ao lado dela e não me sentir meio perdido, sabe? Fico tentado a passar dias ali, ouvindo a respiração calma e reparando nos pequenos sorrisinhos que ela dá enquanto sonha. Cara, te juro, a culpa não é minha. É que ela, ela me faz perder o fôlego. Fica difícil respirar quando a gente ama.

Eu ainda sou o mesmo, mas agora eu escuto umas músicas melosas de vez em quando, no meio do trabalho. E, quando ela não tá reparando, eu fico contando as pintas que ela tem nos ombros ou as sardas na ponta do nariz. E, do nada, me dá um medo bobo de que isto acabe. Ela não entende meus abraços apertados no meio de uma conversa qualquer. Mas é que eu tô sempre pensando: como é que eu vou fazer se isto acabar?

Pensei em procurar um médico, porque de vez em quando me dá umas arritmias estranhas e eu acho que tô com algum problema de saúde. Não deve ser normal tudo isto, mas quem disse que, quando a gente tá assim, liga pra normalidade? Aliás, a gente não liga pra muita coisa. Nem ligo que você espalhe por aí que ando meio brega, que tô escrevendo uns textos confusos, nem que ando com aquela expressão contente insuportável, típica de pessoas apaixonadas. Tá tudo bem, me tornei mesmo uma dessas pessoas.

Mas a culpa de tudo isto? Não é minha, amigo. Talvez os outros amores, os outros erros, os choros passados, as dores que superei e o coração remendado – talvez eu tenha minha parcela de culpa nas histórias que ficaram. Mas dessa vez? Te juro. A culpa é dela, amigo.