Chovia muito e tanto e forte que todos os voos foram suspensos até o céu acalmar de sua ira. Muitas pessoas se aglomeravam no saguão em busca de respostas que ninguém sabia replicar. E eu só queria perguntas. Resolvi beber um café numa cafeteria aconchegante do aeroporto; era a única coisa que despertava interesse no meio de tantas pessoas soberbas e apressadas, no meio de tantos telões e anúncios sonoros. Ali, em meio ao caos, minimamente existia a paz.

Entrei, pedi um café com canela, sem açúcar e bem quente, para esquentar aquela manhã chuvosa que, naquela altura, também começava a esfriar. A garçonete me atendeu com um sorriso que muitas pessoas não sabiam mais sorrir. Pedido em mãos, procurei um lugar para sentar, mas as poltronas vermelhas macias estavam ocupadas com um grupo de senhoras com suas bolsas caras, trajando delicados suéteres e joias valiosas. Recolhi-me; procurei, pois, uma mesa, mas todas estavam cheias. Parecia que o caos tinha saído do saguão para beber café comigo. Ao lado, um rapaz se levantou e, gentilmente, ofereceu sua mesa para ser compartilhada. Eu aceitei a gentileza pouco exercitada atualmente. De alguma maneira, naquele momento, tudo ficou real.

Conheci Leonardo naquela manhã tumultuada, dentro do aeroporto, enquanto chovia e relampeava e trovejava. Curiosamente, ele também bebia café com canela, quente, mas com açúcar, porque dizia que de amarga já bastava a vida. Concordei, sorrindo. Mas o mais importante era a quentura, porque, assim como o amor, café só deve ser quente. Depois de um tempo, confuso, não sabia se trovejava mais em meu peito ou se o estrondo do céu era maior. Pedi uma água sem gás; Leonardo me acompanhou, mas reforçou que a sua era com gás. Muito me encantava aquela sintonia que destoava nos detalhes. No canto da cafeteria, pouco notada, acompanhávamos as notícias sobre a tempestade entre café, água, muffins, e sorrisos. – Parece que essa tempestade não passa hoje, ele disse; eu concordei, torcendo para que não. Passamos o dia inteiro conversando enquanto a chuva precipitava. Falamos de política, de cinema, de teatro, de literatura, de religião, de preconceito, de conceitos. Algumas vezes não falamos nada, absolutamente. O silêncio diz as palavras mais profundas da alma.

Conheci intimamente Leonardo nas mais de dez horas e alguns minutos que ficamos ali se reconhecendo enquanto chovia, porque não era apenas um encontro de dois homens unidos por um café, era a ligação de duas almas presas pelo afeto. De repente, não mais que de repente, os anúncios começaram a soar ao fundo… Voo em direção… voo com destino… voo previsto para…. voo com embarque… Mas eu não queria mais voar, meu desejo era apenas ficar aterrissado naquele ponto.

A tempestade tinha passado juntamente com as horas, sem sentirmos ou notarmos. Algumas pessoas a nossa volta tinham ido embora sem que Leonardo e eu percebêssemos; as senhoras pomposas tinham deixado apenas seus fortes perfumes no assento. Tudo parecia que tinha durado apenas um minuto e um café. Leonardo seguiu para seu embarque, abraçando-me demoradamente, desejando-me sorte e que eu acreditasse na vida. Eu desejei que seu sorriso nunca se apagasse e que tivesse luz na sua trajetória. Em seguida, segui para meu destino. Não trocamos telefones, e-mails, redes sociais; mais importante que tudo isso, trocamos apenas afeto e sorrisos.

Talvez Leonardo não saiba o quanto eu o amei durante mais de 10 horas e alguns minutos daquela segunda-feira nebulosa, daquele ano que só se iniciava. E também não importa: se for para ser, vigora; e, de alguma forma misteriosa, vamos nos encontrar novamente para outra xícara de café com canela, desta vez com um beijo no final.