[Você pode ler este texto ao som de Time Will Tell]

Desculpa, mãe, eu te abracei e falei que voltaria em breve. Eu disse que tudo seria igual em alguns poucos meses, que sua menina estaria em casa em um piscar de olhos, que os dias passariam mais rápido do que você imaginava. Eu falei que você só me perderia de vista por um tempo, um tempo pequeno, e que eu seria a mesma quando você me reencontrasse no aeroporto e me desse aquele abraço apertado que você ficou querendo me dar assim que eu parti.

Desculpa, mãe, eu não sabia, mas eu tava mentindo.

Aquela menina que você viu andando para um novo mundo cresceu. Eu entendi umas coisas nesse tempo, mãe. Entendi um pouco mais sobre o seu amor. Eu me preocupei com vocês que eu deixei do mesmo jeito que você se preocupava cada vez que eu demorava pra voltar pra casa. Eu tive vontade de colocar todos vocês em uma bolha de proteção, por puro medo de que alguma coisa acontecesse pelo simples fato de que eu não estava por perto. Eu senti um pouco como se vocês fossem meus filhos.

Não vai ser tudo igual, mãe. Porque eu questionei as minhas certezas. Eu ganhei novas dúvidas. Tomei outras decisões – e voltei atrás mais de cem vezes. Eu senti medo e depois eu aprendi a lidar com meu próprio medo. Eu deixei de ser a menininha que, antes de entrar na escola, olhava pra trás dez vezes pra ver se você ainda estaria lá me esperando. Eu entendi que você sempre vai estar lá, de braços abertos.

Eu mudei, mãe. Eu cresci. Deixei de acreditar em algumas coisas, me tornei mais racional em alguns pontos, formulei novas opiniões sobre o mundo. Passei a acreditar em outras tantas coisas. Me virei, me tornei mais independente, deixei de precisar ouvir o tempo todo o que os outros achavam que eu deveria fazer. Segurei as rédeas da minha vida, ainda que eu continue sem saber ao certo o que fazer com ela. Eu perdi o medo de me jogar no mundo sem ninguém.

Lembra quando eu era criança e eu sempre precisava de uma amiguinha pra fazer as coisas porque eu tinha medo de ser sozinha? É essa criança que não vai voltar, mãe. Porque eu aprendi a ser só e, sendo só, eu aprendi a amar ainda mais vocês.

Mas pode respirar, mãe: eu vou voltar. Eu só não vou voltar a mesma. Porque eu não sou mais aquela menininha.

Karine