Eu só quero que você só queira me comer


Eu não queria nada, juro. Era só uma estrelinha que eu tinha dado praquela noite. Que tinha sido tão boa que me convenceu. Que deixou aquele friozinho na barriga quando vinha a lembrança. Sabe? Aquele geladinho que sobe a espinha quando você lembra da pessoa tirando a sua roupa? Era isso.

Eu também já tinha enfiado na minha cabeça que NÃO. Não ia rolar sentimento porque eu sabia que SIM. Seria outra decepção. Outra semana de crise de autoestima. Outro dia inteiro comendo chocolate. Outras milhões de horas choramingando na cabeça das minhas amigas. E eu tinha decidido que BASTA. Basta de casos mal contados, mal terminados, mal interpretados por uma parte ou por outra. Em resumo, o que eu queria com ele era só sexo mesmo e, pera aí, eu posso querer isso, não posso?

A resposta pra minha pergunta é: não. Cheguei à conclusão de que mulher não tem esse direito. A menos que você seja direta, escancare: “eu só quero que você só queira me comer”. Nada contra as que decidem fazer dessa forma. Até admiro, muito! Mas não faz o meu tipo, que sou mais de escrever que de falar. O problema é que expor, assim, na cara, também gera uma série de consequências do tipo: ele te trata como um número, um boi marcado, um objeto, como se estivesse fazendo um sacrifício ou, sei lá, te fazendo um favor. Eu só quero que ele me faça gozar e se lembre de fazer um carinho no meu rosto depois. Será que eu to pedindo muito?

O curioso é que eu sei que se eu postar no Facebook agora “quero dar”, vai ter candidato. Mas não há dúvida, se eu quiser, por exemplo, mandar uma mensagem no dia seguinte, fudeu (ou não, com a licença do trocadilho).

Se eu te mando uma mensagem, se eu reajo, se eu me manifesto de qualquer que seja a forma, isso não significa que eu me apaixonei, só quer dizer que eu to investindo, como você faria se, por acaso, eu não falasse nada. Porque existe isso: mulher e sexo são dois assuntos socialmente separados, já reparou?  Tem aquela história que alguém contou há uns muitos anos que diz que o homem faz sexo e a mulher faz amor. Pode até ser que, hoje em dia, isso seja só mais um discurso velado, mas ele ainda existe. Existe nesse tipo de reação que repele qualquer movimento pós-sexo sem compromisso com medo de que “ai meu Deus, agora ela quer casar comigo”.  Existe na expressão de espanto do cara que diz “como assim, onde foi que você aprendeu isso?”. Existe na cultura que separa “mulher pra casar” das “outras mulheres” (me encaixo nessas aí, com certeza). E por aí vai…

Ai gente, vamos lá. Vamos parar com a hipocrisia, só um pouquinho?  Anota aí: se eu me apaixonar por você vai chegar com aviso prévio. Eu fico boba. Fico bamba. E aí vai ser diferente. Em vez de dizer “Quero dar pra você”, eu vou dizer “Eu te amo. E quero dar pra você”.

Letícia Nery

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