Desculpa o silêncio que fica entre uma sílaba que eu te digo e outra, é que eu não sei lidar com uma situação em que esteja só eu e você e não me sinta bobo, perdido na curva e sem um norte. É que eu tremo todo quando eu tô do teu lado, porque parece que as feridas de uma vida toda, todas as marcas profundas que ardem há um bom tempo estremecem e parecem desaparecer quando eu tô com você. Porque você não pressiona os meus cortes e as minhas dores, você dá um sopro leve e suficiente pra levar embora com o vento essas coisas todas que me atormentam.

Eu convivo com um monte de demônios particulares, meu bem. Demônios dos outros que ficaram quando eles se foram e só deixaram essa coisa que me causa angústia. Demônios de quem passou e não deixou lembrança boa alguma, só aprendizado e tormento, e uma hora sobrecarrega e fica difícil conviver. O fardo pesa, sabe? Não sei qual é o feitiço ou a simpatia, se é truque ou encanto, mas quando você tá aqui eles voltam todos acuados pra dentro da toca, todos fragilizados e sem forças pra me atormentar, porque parece que você tem alguma coisa que me liberta deles.

Quando eu tô do teu lado, meu bem, meu peito descompassa. Não é medo, é pra acelerar o meu batimento com o teu; pra se sentir seguro; pra perceber que eu não caminho sozinho. Meu peito descompassa e o corpo inteiro também. Treme bobo. Limita os movimentos que é pra não te assustar. Impede o canto da boca de voltar e desfazer o sorriso que surge involuntariamente quando eu tô do teu lado. Vê o mundo e as pessoas todas passarem devagar, porque o tempo para e o mundo desacelera quando eu tô contigo. Coloca a mão no meu peito e sente a pulsação firme e que me firma longe dos demônios todos, que entrega de bandeja esse meu jeito desajeitado que se desconstrói todo quando você tá aqui.

Sussurro no teu ouvido, com doses de silêncio entre uma sílaba e outra, um verso que te faça bem e que te liberte dos teus demônios. É que é pra ver se o teu peito também descompassa e sincroniza os batimentos com os meus. Pra ver se você sente o descompasso e se esquece do mundo; ver se você se desliga das outras coisas todas enquanto me olha e percebe alguma coisa nesse meu jeito meio bobo meio acuado de quem já passou por tanto e convive com tantos tormentos que se perdem e voltam pra toca quando eu tô contigo. Pra ver se você gosta de mim e percebe o que eu já percebi.

hermann