Outro dia estava conversando com um amigo e, depois de falar de trabalho, família e amigos, o assunto migrou para sexo. É normal: todo mundo sempre fala de sexo. O que achei estranho é que, na guinada de temática, ele diminuiu o tom de voz e começou a selecionar melhor as palavras. A impressão que dá quando falamos deste assunto em locais públicos é que estamos nos confessando, falando de alguma coisa errada que fizemos. O que é muito bizarro, levando em conta que (quase) todo mundo faz isso e, bem, obviamente tirando os casos de violência sexual, não é algo que faça mal a ninguém. É foda: a culpabilização do sexo é uma das maiores cicatrizes culturais que a gente carrega.

No começo do ano, em função de uma matéria que fiz para o site onde trabalho, visitei uma sauna gay. A ideia era produzir um relato sincero sobre um ambiente que habita o imaginário da maioria das pessoas, mas que quase ninguém sabe exatamente quais são seus protocolos comportamentais. Uma das primeiras coisas que me chamou atenção aconteceu antes mesmo de entrar no local. Além de mim, iria também um ilustrador da redação para dar uma olhada no ambiente e fazer um desenho bacana da sauna. Mas rolou um problema.

O ilustrador, gente finíssima e hoje em dia um baita amigo meu, em um primeiro momento se recusou sumariamente a me fazer companhia na ida. O que ele, um homem cristão e heterossexual faria em um ambiente de tamanha promiscuidade? Fiquei puto com a resistência dele em ir. Era trabalho, única e exclusivamente. Ele não estava indo lá para nada além de ver o que acontecia com os próprios olhos, porque o que as outras pessoas estariam fazendo em volta incomodaria tanto ele? Porque era sexo. Sexo incomoda demais, ainda mais se for outra pessoa se permitindo fazer. É como se estivessem jogando na sua cara: “ei, você está aí cheio de problemas mal resolvidos sobre a própria sexualidade enquanto eu estou vivendo a minha vida sem pesos desnecessários na consciência”.

As pessoas crescem com medo de explorar a sexualidade e evitam situações que possam colocar em xeque os conceitos frágeis que constroem os pilares da moral e dos bons costumes. A sociedade que a gente vive tem disso: para a manutenção de determinados sistemas de opressão, ela precisa de uma massa mentalmente castrada, reprimida e, principalmente, com medo. Por conta disso, uma atividade biologicamente natural e genuína como o sexo é envolta em uma série de rituais e convenções sociais que fazem dela algo quase sobrenatural. Mas é preciso que se saiba que não é. Poucas coisas, inclusive, são mais humanas do que o sexo. Talvez comer e dormir estejam em pé de igualdade – e você ama fazer as duas coisas.

E por que quando a gente está conversando no bar, não abaixamos a voz, nem usamos eufemismos para se referir à soneca maravilhosa que tiramos na noite anterior? Porque em momento nenhum da história, (ainda que, vejam só, a preguiça e a gula sejam consideradas pecados capitais) instituições influentes e poderosas como a Igreja Católica utilizaram suas horas de cochilo para definir padrões comportamentais. Já pensou viver em um mundo em que dormir quando se tem vontade fizesse de você um ser humano sujo, em que existissem contratos para definir como e quando você pode dormir, em que o sono fosse tratado como algo secreto e que precisa ser feito escondido? Pois é.

No fim das contas, são inúmeras as pesquisas que mostram que o sexo faz bem para caramba. Uma pesquisa realizada pela Durex Global Sex Survey, por exemplo, mostrou que o sexo melhora o humor para 63% dos homens e 72% das mulheres. Outra, feita pela Universidade de Quebec, no Canadá, mostrou que fazer sexo pode ser tão eficaz para eliminar calorias quanto a corrida. Um estudo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, provou que o sexo pode tornar a pessoa mais inteligente e melhorar a memória de longo prazo. Pesquisadores da Universidade Wilkes, da Pensilvânia, descobriram que sexo aumenta os níveis dos anticorpos que protege contra germes, vírus e outros invasores. E essas são só algumas das poucas.

Ah, sobre a matéria lá da sauna: o ilustrador acabou me acompanhando no fim das contas. E o que ele achou da Sodoma e Gomorra que ele estava imaginando? Nada demais. Toda aquela bagunça psicológica que fizeram na cabeça dele sobre os malefícios do sexo despretensioso foi por água abaixo quando ele viu um ambiente onde de fato isso acontece. E eu também fiquei surpreso sobre como a repressão sexual está enraizada na gente. A galera lá não estava ligando para nenhuma das convenções que regem a sociedade e que, no fim das contas, não fazem muito sentido. Sexo, na real, não tem nada demais. E, pensa bem, você está fazendo menos do que gostaria por conta de um monte de regras fundamentadas em… nada.

Claro que não é fácil se libertar de conceitos que foram empurrados goela abaixo de todos nós desde que nascemos. Nem estou dizendo que fazer sexo é a solução de todos os problemas. Essa história toda do sexo foi basicamente o que se tornou minha conversa de bar com o meu amigo lá do começo e ela é só um exemplo sobre como coisas que deveriam ser simples acabam sendo problematizadas sem motivo. Tem tanta regra sem sentido que as pessoas seguem sem refletir (qual a diferença entre o mamilo feminino e o masculino para um ser publicamente aceito e ou outro não?) e que tornam as pessoas mais reprimidas, sem que elas nem saibam o motivo.

Sou a favor de parar para pensar antes de fazer sexo. Mas, mais importante ainda, sou a favor de parar para pensar se existem motivos para não fazer. E, depois de decidir fazer ou não, pode contar para seus amigos sem usar meias palavras – independente de ter escolhido uma noite de sexo ou uma noite de sono.

rafagonz