Thursday 31st July 2014,
Entre Todas as Coisas

Desligue-se

Daniel Bovolento 6 de janeiro de 2014 Artigos
Desligue-se
Leia em tela cheia!

Você acorda e verifica em todos os cantos as notificações que recebe. Todos os cantos do seu smartphone, eu digo. E nem abriu os olhos direito pra acordar de verdade. Essa atividade se torna um propósito: olhadelas na tela ao alcance das suas mãos de minutos em minutos. A frequência aumenta de acordo com a importância das suas publicações e não pretende diminuir tão cedo. E você desliza a tela como se transformasse os dados em realidade aumentada. Desde quando você passou a viver dentro do seu iPhone – ou de qualquer outro modelo de celular que tenha?

É meio triste perceber que os seus momentos em contato com o mundo lá fora  dessa tela se transformaram em possibilidades de registros e são desperdiçados a cada fotografia tirada. No intuito de dividir com o mundo seus espetáculos individuais, você se esquece de acordar de manhã e abrir os olhos para o que está bem na sua frente. O entretenimento e o prazer cotidiano são visualizados por telas estáticas, e você se esquece do movimento. Emoções 2.0, traduzidas em imagens, vídeos e legendas compartilhadas com o mundo e esquecidas por você. Ou você vai me dizer que conseguiu apreciar o pôr-do-sol ao invés de trocá-lo por likes no Instagram?

As redes sociais não devem ser demonizadas, coitadas. Nosso uso delas é que deve ser revisto. Eu mesmo, quando mexo no celular, ignoro o mundo ao meu redor. E parei pra pensar, depois de assistir ao vídeo abaixo, que ignorei pessoas, momentos, recordações mentais e sensíveis do que vivi pra poder registrá-las. Ignoramos shows, espetáculos da natureza, o papo do boteco e todo o universo das sensações num único intuito de congelá-lo para o mundo.

Em troca de quê a gente faz isso? Em troca da sensação de aprovação ou conexão com os outros e da desconexão da vida? Pornografia emotiva, eu digo. Transformamos as coisas todas em minúsculas pílulas exibicionistas que oferecemos a quem nos segue no mundo virtual, com o intuito de dizer a eles que somos felizes, que comemos bem, que estamos na praia, que o show tá ótimo. Narradores da vida que somos, geralmente, nos perdemos dela. E continuamos não abrindo os olhos antes de acordar. É como se você perdesse os primeiros passos e palavras do seu filho porque tava muito empolgado contando pra alguém sobre o crescimento dele, e virasse o rosto para olhar pro outro.

Então eu te convido a retornar ao mundo. Uma experiência sensorial de convivência iniciada por um único ato: desligue-se. Sei que as justificativas começam a pipocar, mas cá entre nós, você precisa mesmo checar o seu e-mail na hora do almoço ou nos feriados? Você precisa narrar a vida em tempo real e não pode deixar pra depois? Cuide dos momentos seus como se fossem seus filhos e eu garanto que a narração posterior vai ser mais rica e cheia de detalhes que foto nenhuma poderia descrever. Curta o show, a banda, a música daquele festival sem levantar os braços pra transmitir sons que não existem em pixels. A sua memória funciona muito melhor quando usa seus sentidos pra traduzir o que viu, ouviu e sentiu. Olhe nos olhos de quem tá contigo e crie laços na vida real, não somente teias nas redes sociais. Garanto que os laços são mais fortes.

Esse é um exercício que convido você a fazer e que farei também. Pelo menos, tentarei abrir meus olhos primeiro ao acordar e otimizar meu tempo ocioso nessas redes. Tentando registrar menos e viver mais. Nossos melhores momentos não possuem registros, porque são sensações. Sinta você também e viva menos dentro do seu smartphone.

bovo

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  1. Amanda B 6 de janeiro de 2014 at 6:30 pm

    <3

  2. Priscila 6 de janeiro de 2014 at 7:03 pm

    Sem mais! :)

  3. Anny 7 de janeiro de 2014 at 9:15 am

    Tenho refletido muito sobre isso nos últimos meses… muitas vezes vou aos lugares sem celular, só para não me desconectar das pessoas que estão comigo! Belo texto Daniel, como sempre, arrasou!

  4. Bruna 8 de janeiro de 2014 at 10:47 am

    Você conseguiu ?

  5. Larissa 10 de janeiro de 2014 at 3:38 pm

    Nossa, esse texto traduziu em palavras o que venho pensando a muito tempo.

  6. Preta 11 de maio de 2014 at 3:13 pm

    Mais um maravilhoso texto.Há dias(05) estou até sem celular. Me desconectei da rede tb.No início me deu um vazio.Agora estou engatinhando na vida normal que eu levava antes da minha loucura, do meu vício nas redes sociais, do meu vicio em ficar ligada no smarth: consigo ler, consigo observar paisagens e pessoas.Consigo “me escutar”.