Thursday 23rd October 2014,
Entre Todas as Coisas

Quando você foi embora

Daniel Bovolento 18 de agosto de 2013 Crônicas e contos
Quando você foi embora
Leia em tela cheia!

[Você pode ler este texto ao som desta versão de Call Your Girlfriend]

A insistência pode ser mais dolorosa do que o fato em si, sabia? Porque eu, ah, eu tenho dessa coisa minha, só minha mesmo, de me apegar a cada rejeição e criar como se fosse semente no algodão. Com afeto e com todo cuidado doentio de quem não consegue se desprender dum mundo-nada-ideal em que você não me contou nada, e eu finjo saber em silêncio. Finjo saber que você vai embora daqui a pouco, finjo saber que você vai sentar comigo numa praça movimentada às oito da noite duma terça-feira friorenta pra cravar sete graus Celsius de despejo no peito. Finjo que sei prever o futuro e pode ser que eu esteja certo e que isso vá acontecer, mas o fato da previsão ser duvidosa, ainda que numa margem de erro pequena, me conforta. Me conforta porque você ainda não bateu o martelo, não me chamou pra falar, não decretou alforria sentimental e nem se desprendeu de mim. E enquanto eu tenho isso, eu finjo, finjo, finjo e suplico pra mim mesmo que tá tudo bem.

E chega um dia em que você me conta que conheceu alguém novo.

Nesse dia não teve porta destrancada e eu nem me lembrei de acender a luz do corredor. Nesse dia bateram lá em casa pra ver se tinha alguém e já não tinha. Apaguei a luz pra ver se você caía no meio do caminho tentando me achar, pra ver se você se machucava ou se cortava no chapisco da varanda, pra te causar alguma dor física que compensasse. Ah, porque a gente quer sempre machucar o outro de alguma forma quando a gente sente dor sozinho e quando nem tem como remediar direito. Quer que o outro se sinta mal e se sinta mesmo, sem dó nem piedade. A gente quer deslocar o lugar de vítima pra outra pessoa que não seja a gente porque a gente não se basta mais de tanta angústia que já cabe aqui dentro.

Eu rego minhas mágoas diariamente. Só que essa tem lugar especial. Como num ritual pré-estabelecido, despejo água salgada direto da fonte sobre ela. Que se alimente de mim e de você e de toda essa dor comprimida que não dá pra engolir. Despejo o vidro de remédios no ralo da pia e desço com eles pra viver nessa condição-placebo que me obriga a te acusar. E te despejo de acusações. Te acuso de ainda estar bem. Acuso e recuo e queria que você sentisse o gume pontiagudo espetando, raspando a ferida pra não infeccionar, pra deixar os pontos abertos, expostos pra drenar você. Recuso a cura. Me recuso a aceitar que você tenha passado por isso como se nunca tivesse visto metade do que eu vi de sofrimento e solidão. Abuso e peço pena de tortura – porque o que eu sinto não pode pegar prisão perpétua e o corredor da morte pra gente carece de pânico e de dor pra você. Exijo tortura em histeria. Numa histeria tão silenciosa quanto a dor de ver quem você amou indo embora de mãos dadas com alguém, sem nem sentir o peso da sua perda. Numa histeria que observa o calendário e confessa que os meses de janeiro a dezembro tiveram carinho, conforto e passaram sem marcas pra você enquanto eu via cortes cada vez mais fundos numa pele inchada e marcada por malas nunca desfeitas debaixo dos olhos.

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  1. Meios Dias Gastos 18 de agosto de 2013 at 9:52 pm

    Uaau, realmente fingimos tanto, tanto, tanto que às vezes até chegamos acreditar que é verdade, que vai acontecer. Acho que você soube descrever bem o que as pessoas pensam neste texto Dan, e principalmente na parte “E chega um dia em que você me conta que conheceu alguém novo.” O “medo” das pessoas de ouvir isso é enorme. E dói. Como dói.

    Não sei como não linkei você no meu blog antes, e olha que acompanho sempre seus textos mega inspiradores. Vou adicioná-lo a minha lista (:

    BeeijOs
    http://meiosdiasgastos.blogspot.com.br/

  2. Nádia Campos 18 de agosto de 2013 at 10:26 pm

    Leio todos os seus textos, mas nem sei se já comentei algum. É sempre como se você conhecesse a vida de alguém para escrever, mas cara, neste você se superou. Tem muito de mim aí. Parabéns!

  3. Meios Dias Gastos 18 de agosto de 2013 at 11:33 pm

    Comentei por aqui e sumiu o comentário :( que triste isso.

  4. Swelen 19 de agosto de 2013 at 11:28 am

    É incrível como uma dor só sua acaba sendo transmitida a outro através de versos encantadores. Há uma semana recebi a noticia de alguém novo na vida de um amor que nunca ia embora. E acabo de ver de mãos dadas com a magoa apenas em meu peito.
    Queria que junto a esse texto viesse também a formula de sorrir depois de ter o coração partido!
    Bj Dani, esta espetacular como sempre.

  5. Pedro 19 de agosto de 2013 at 11:47 pm

    Pela primeira vez fui ler um texto de Daniel Oliveira e me pergunto o porque nunca parei para ler seus textos? Parabéns! A partir de agora ganhou mais um leitor e divulgador dos seus textos! :)

  6. Almeida 20 de agosto de 2013 at 1:11 am

    Dani, talve você nem leia os comentários, mas por incrível que pareça, e também por mais clichê e redundante que seja, hoje eu tava sofrendo calada, como na maiorida das vezes, ae resolvi, depois de meses de paixão desenfreada, ler seu blog.. Nossa, eu te liguei nos meus sonhos e contei minha vida?? Agora ensina a formula de sorrir de novo Dani, ensina as melhores maneiras de conhecer alguém..
    Bjos de um leitora não assídua mas agradecida por você preencher os vazios da minha madrugada

  7. Débora Thalita 20 de agosto de 2013 at 9:48 am

    Cara, quanto sentimento nessas palavras. Demais. Parabéns!! Amo seus textos.

  8. Aline Rodrigues de Oliveira 21 de agosto de 2013 at 9:40 am

    “A insistência pode ser mais dolorosa do que o fato em si[...]eu tenho dessa coisa minha, só minha mesmo, de me apegar a cada rejeição e criar como se fosse semente no algodão[...] A gente quer deslocar o lugar de vítima pra outra pessoa que não seja a gente porque a gente não se basta mais de tanta angústia que já cabe aqui dentro[...] Eu rego minhas mágoas diariamente.”
    Eu não medescreveria tão bem… Chorei lendo… Pior!
    Parabéns, como sempre “PERFEITO”.

  9. Daisy 21 de março de 2014 at 4:49 pm

    Maravilhoso em fim encontrei algum lugar para ler sobre amor de verdade, amor que faz sorrir, que dá prazer e que causa dor!!! Obrigada.

  10. Thayana 2 de maio de 2014 at 5:50 pm

    Chorei lendo seu texto Daniel…
    Me identifiquei muito!

    “Exijo tortura em histeria. Numa histeria tão silenciosa quanto a dor de ver quem você amou indo embora de mãos dadas com alguém, sem nem sentir o peso da sua perda.”

  11. Lucy 2 de maio de 2014 at 6:43 pm

    Gostei desse texto porque retrata a nossa realidade, e tudo que nos sentimos quando estamos apaixonados e nao da serto a relacao