Foram vocês. Os meus amores de fim de mundo foram aqueles que pareciam profetizados e marcados pelos Maias como um dos carmas mais intensos da minha vida. Foram amores-fenômenos-da-natureza. Alguns terremotos, muitos vulcões em erupção, tornados sentimentais e tsunamis que me tiraram do lugar tantas vezes que já perdi as contas. Foram amores de desespero dramático, feitos em moldes shakespearianos com uma boa dose de tragicomédia. Interpretados em grandes arenas de combates por gladiadores que estavam dispostos por tudo – e pelo outro principalmente. Foram os arranhões mais frequentes, os incidentes planejados e a falta de esperança de que eu encontraria alguém que pudesse repor todo aquele sentimento extravasado na mesma dose e na mesma loucura.

É que eu nunca soube que fins de mundo podem se repetir diariamente. Ou com mais frequência do que se pode imaginar.

Sempre achei que o dia seguinte aos adeus que dei nunca fosse acontecer. Eu implodiria com toda a minha tristeza e frustração e guardaria pra mim aquilo que eu queria que o mundo inteiro soubesse. A angústia berra e o que dói é ver que ninguém consegue ouvir do mesmo jeito que você. Que ninguém sente aquela pontada fora do ritmo que aperta o coração e faz com que você se sinta perdido no tempo e no espaço. Desorientado e com o coração querendo pular pela boca em palavras. Algumas vezes a angústia me escapou pelos olhos, noutras preferiu se esconder num porão escuro e se calar.

Mas sempre doeu. Até quando eu dava um jeito de fazer a lava congelar e ficar ali paradinha e concentrada num único lugar. Só que o meu peito sempre sentiu o ardor rasgando cada centímetro dele na iminência de fugir dali. Minhas batidas eram urgentes e ao mesmo tempo silenciosas.

Eu nunca quis anunciar que seria o fim do mundo pra mim. Nem pra vocês, nem pro resto do mundo. Guardei o pânico e os pedidos de “mais tempo, por favor” e ninguém nunca ouviu falar deles. Até a hora das despedidas. Quando me despedi de cada uma de vocês, fiz questão do beijo final. O beijo que sela e que dá a esperança de um recomeço. Como se o contato final tivesse aquela engrenagem capaz de fazer girar um recomeço. Como se a gente pudesse criar um big bang a cada última gota de algum amor de fim de mundo. Como se eu não sentisse a destruição de mais um mundo construído por um chão que estava desabando embaixo dos meus pés.

Aos meus amores de fim de mundo eu deixo o meu muito obrigado.

Vocês me fizeram perceber que a gente pode se assustar, perder o chão, chegar à beira da loucura e sair com uns machucados terríveis quando um mundo acaba. Mas a gente sempre sobrevive.

E eu vi meus mundos acabarem um monte de vezes. Acordei na manhã seguinte e tava tudo bem. Encontrei outros amores de recomeço – e alguns viraram mais outros fins de mundo. Mas tudo bem. Coração foi feito pra bater e apanhar. O que ninguém contou sobre ele é que também foi feito pra se reconstruir de novo e de novo e de novo e sempre que a gente precisar criar novos mundos com novas pessoas e com nós mesmos. E daí bola pra frente.