Acordei de manhã com a falta de ressaca e com uma preocupação a mais. Procurei nos classificados por alguma morena, alta com olhos verdes que fala mais do que locutor de jogo de futebol em final da Copa. Procurei por manchetes que denunciavam o desaparecimento de um par de pernas firmes, de um beijo atenuado por lábios macios e de cabelos meio ondulados que combinam com o seu humor variável. Liguei a TV em busca de alguma notícia que localizasse o vestido vermelho, o gosto por música eletrônica e as cores das bebidas que você tomava antes de dizer alguma coisa. Procurei até dentro dos armários para ver se você não teria se escondido. Mas não.

Corre para o jornaleiro! Ele sabe das notícias da cidade antes do sol acordar. Mas não sabe o nome dela e nem o paradeiro. Calma aí! Não fecha o sinal! Deixa eu atravessar a rua e perguntar se aquela moça de costas é ela. Procura no bar uma solução. Invade as portas e pergunta aos caixas, ao gerente, ao espelho do banheiro sobre o reflexo dela. Senta com o músico e faz uma canção! Talvez ela ouça e se lembre de que me deixou aqui sozinho sem sinal nenhum. Vá às ruas e grite! Me chamam de louco e querem me prender. O atentado ao pudor do silêncio é uma afronta aos covardes que não conseguem entender que perdi meu amor na balada de ontem. Eles não têm coragem de subir nos bancos, nem de parar os sinais e perguntar por ela. Eles deixam que ela se vá e dão de costas porque dizem que o destino quis assim. Eles deixam que a história se rompa e não se corrompem na busca. Querem a normalidade dos dias úteis e do horário comercial. Isso é coisa de filme. É o que eles querem que você acredite, rapaz! Eu aposto mais no acaso do que no destino. E estufo o peito contra o descaso.

Perdi o temor na jornada. E os que me olham torto não entendem a adrenalina e a necessidade que tenho de encontrá-la por aí. Não me interessa que ela não seja daqui ou ande por lá. Não me interessa que tenha outro ou que o passado dela seja complicado. Não me interessa se usou o nome errado ou se vai desistir de mim no próximo encontro. É que primeiras chances só são jogadas fora se a gente quiser. E eles jogam. Como jogam lixo nas ruas. Como jogam qualquer palavra no chão. Como jogam promessas para o espaço. E nem se importam com isso. E vocês jogam chances fora por medo de correr atrás. Por medo de conhecer o desconhecido ou ferir o orgulho com o já conhecido. E vocês acabam jogando o coração no lixo e não seguem o ritmo dessa canção…

Mas ela aparece. Uma hora ela aparece e me encontra de novo. E quantos amores vocês já perderam na balada, na jornada, na escada ou em qualquer outro lugar fora das rimas? E quantos filmes foram precisos para vocês decidirem deixar isso tudo pra lá? Hollywood da vida real é bem aqui. Não tem roteiro e muito menos script definido. E, pra mim, também não tem mocinha, vilã nem casal feliz ainda. Mas eu continuo andando, buscando, gritando pela vida real e por outros mundos. Não tenho nome, nem sobrenome, mas tenho esperança. Não tenho foto, nem telefone, mas tenho o recorte de sensações que ela me provocou. E posso usar isso como descrição ou como uma espécie de amor falado. E quanto a eles, deixe que me prendam ou que queiram me parar. Eu continuo buscando. ATENÇÃO: eu perdi meu amor na balada! Será que alguém dessa cidade pode me ajudar?