Saturday 02nd August 2014,
Entre Todas as Coisas

Histórias de amor não duram manhãs inteiras.

Daniel Bovolento 5 de abril de 2012 Crônicas e contos, Relacionamentos, Sobre as mulheres
Histórias de amor não duram manhãs inteiras.
Leia em tela cheia!

É a música dela tocando. Ela dita um ritmo que se perdeu. Quando foi que você se perdeu assim? Ela já não sabe mais. Deixou de tentar faz tempo. Não adianta tentar classificar essa história como uma história de amor. Ou uma história de abandono. Ou até uma história de quem assinou um contrato e largou o amor à revelia. Ela abandonou o barco, o bote, o porte e se deixou de lado.

Em meados de tempo algum você me disse que tinha a mais absoluta certeza do que queria. O seu trabalho era prioridade para os outros. Longe de você. Longe dela. Ela queria mesmo era mostrar todo esse amor no peito que ninguém consegue ver. Engraçado isso. Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente. Bate aqui dentro, acelera os batimentos, não se deixa denunciar. Mas nós somos inquietos. E já que ela não podia fazer com que eu a amasse, ela tinha que se redimir com o mundo. Abraçou a causa do quarto escuro por alguns dias, lamentou-se numa revolta que não durou algumas lágrimas. Mulher geralmente tem esse dom de transformar paixão em dor e dor em sossego. Sufoca não ter com quem dividir. Por isso, eu digo que essa não é uma história de amor. É a história dela e a forma com que ela tragou o sufoco e engoliu a fumaça. E a conta do analista vai para qual dos lados?

Permita-me resenhar o que aconteceu com essa jovem, Doutor. Ela tinha medo das manhãs. As manhãs a obrigavam a admitir a si mesma que falhou miseravelmente nessa causa. Era flagrada a trair-se ao olhar para mim. Eu fiz de tudo. Mas não sabia como curar essa apatia dela pelo mundo. Ela gostava das noites porque toda sombra parecia um vulto. E assim ela sabia que tinha companhia para dormir. Você pode achar sombrio. Eu acho que tem muita esperança nos olhos e nos lábios dela, Doutor. Ela tentou comigo e só. Nunca foi expansiva, nem tímida demais. Ela tinha a dose certa de medo, angústia, alegria e esperança. Receita boa para quem quer contar alguma história um dia. Acho que você consegue acreditar em amores que não se realizaram, mas foram amores. Foi o caso dela. Que amou sozinha e me amou demais. E dominou as noites, perdeu algumas manhãs e chegou à conclusão de que guarda-chuvas furados não servem de nada.

Ainda existem marcas de dedos no piano da minha sala. Ou no piano velhinho da sala dela. Foram os últimos acordes de quem precisava expor. Ela precisou colocar para fora tudo isso para se dar conta de que o problema estava bem dentro dela. E haja interpretação de cena para que ela se visse em meio a um filme sem roteiro completo e sem protagonista. Ela era adepta da máquina de datilografar. Cada letra marcada em alto relevo num papel timbrado. Figura clássica, figura básica. E quando a chuva apertou e os pingos a molharam, ela desistiu. Não foi feita a gancho de história. É a história dela e não alguma outra história que você encontra por aí. E eu tenho a minha parcela de culpa por não conseguir correspondê-la. Mas é que vivemos em épocas diferentes e nossos amores não se cruzam porque guardamos aqui dentro e renunciamos a exposição.

Ela anda por aí. Em cada esboço que se faça sobre a sua história. Essa menina faz parte da sombra de muitas mulheres que rabiscaram alguma coisa para falar de amor. Tem um sabor agridoce nos lábios e os olhos continuam enxergando companhia em noites despretensiosas. O sorriso dela foi talhado a ferro e fogo. E acredito que não há analista ou borracha nesse mundo que a façam apagar o sorriso do rosto. Ela é uma mulher real. E, pra dizer a verdade, essa menina é o passado de toda mulher que um dia amou alguém.

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  1. Raissa 5 de abril de 2012 at 6:58 pm

    amei amei amei :’)

  2. JulianaF 5 de abril de 2012 at 7:15 pm

    Perfeito!! Descreve o que estou sentindo! *-*

  3. shufflevie 5 de abril de 2012 at 7:16 pm

    toda garota que já amou, sentiu isso. amei!! desabafei sem precisar escrever. ;)

  4. Jéssica 5 de abril de 2012 at 7:18 pm

    Muito mais que real, diria que todos já sentiram isso um dia!! “Acho que você consegue acreditar em amores que não se realizaram, mas foram amores.”
    Mto bom, mto bom :D

  5. Letícia Stahelin (@Lestahelin) 5 de abril de 2012 at 7:28 pm

    Muito legal esse texto. E assim, “paixão” no sentido bem certo dela, é sofrimento. Hahaha Então, nossos relacionamentos andam de mãos dadas com a dor, é verdade. E eu, sendo mulher, digo que nossa vida sempre tem fragmentos de amores. Nem que sejam os amores passados. Digo por mim, claaaaro!

  6. Ana (@AnitaPassos) 5 de abril de 2012 at 7:46 pm

    Eu preciso falar dos meus sentimentos.Já falei pras amigas,pra analista,terapeuta,psicólogo….
    Hoje falo pra mim mesma,fecho a porta do quarto coloco uma música no volume baixo e fico conversando comigo mesma,colocando questões pra eu mesma responder,me dando conselhos e me fazendo pensar,refletir.
    No fundo a gente se conhece melhor que ninguém.

    Ótimo texto Daniel!

  7. iris 5 de abril de 2012 at 7:51 pm

    aaaaai que lindoo ! *-*

  8. Luane Caroline 5 de abril de 2012 at 7:58 pm

    Fiquei feliz ao ver que a trilha sonora é a música que adoro ouvir o Bon Iver cantar. hahaha
    E o texto tá lindo. <3

  9. sophierl 5 de abril de 2012 at 8:30 pm

    arrepios ao ler o final haha ahazou como sempre :)

  10. Rafaella 5 de abril de 2012 at 9:48 pm

    teus texos são perfeitos, simplismente isso .
    cada palavra , cada vírgula , cada ponto .. perfeito .

  11. Chay 5 de abril de 2012 at 9:53 pm

    Me senti parte de cada palavra…

  12. Paula Carolina 5 de abril de 2012 at 10:53 pm

    lindo demais Dani, parabéns.

  13. andreia 5 de abril de 2012 at 11:26 pm

    Esta é a estória dela… esta é a minha estória… texto perfeito!!!
    Daniel, vc escreve c a alma, lindo isso!!!

  14. Luciana Ruff (@luhruff) 5 de abril de 2012 at 11:41 pm

    Mas ba guri, cada vez que leio teus textos, começo a me encaixar na história, parece que descreves coisas que aconteceram comigo, só que de forma poética, hahha ;)

  15. Lígia 5 de abril de 2012 at 11:43 pm

    Vi muito de mim nessa menina.

    Ótimo texto.

  16. Suzana Martins 6 de abril de 2012 at 10:34 am

    Ainda existe o medo que a pondera no sentir…

    Lindo isso!

    Abraços

  17. bertagna 6 de abril de 2012 at 3:00 pm

    Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadrose comentado:
    )

  18. Renata 6 de abril de 2012 at 3:52 pm

    Lindo! Parabéns!

  19. Anonymous 6 de abril de 2012 at 4:58 pm

    Choreiiiiiiiiiiiiii ouvindo essa musica e lendo esse texto hahahahaha

  20. Universo de Celinha 7 de abril de 2012 at 8:47 pm

    Ah! Conheces a alma feminina! Perfeito! Parabéns!

  21. Ana 10 de abril de 2012 at 7:16 pm

    Sei lá. Acho que foi a coisa mais linda que li nos últimos dias e ainda com ‘I Can’t Make You Love Me’ ao fundo. “Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente.” Você me conhece? risos. Sempre acompanho teu blog e achei esse texto um dos mais lindos. Parabéns de verdade.

  22. Fe Mesquita 11 de abril de 2012 at 12:58 pm

    ‘Ela é uma mulher real. E, pra dizer a verdade, essa menina é o passado de toda mulher que um dia amou alguém.’

    é isso, simples assim…

  23. mundodam 12 de abril de 2012 at 11:26 pm

    Lindo! Amei, realmente fala tudo que eu sinto e todas as meninas sentem.

  24. Carolina 14 de abril de 2012 at 9:31 pm

    O mais impressionante desse mundo é ver como você consegue colocar em palavras tudo aquilo que eu não sei nem por onde começar a explicar. Mais um texto fantástico. Parabéns.

  25. joelma 18 de abril de 2012 at 12:29 am

    Prfct*

  26. Gaby Duarte 23 de abril de 2012 at 12:44 am

    “Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente.”

    Adorei o texto.

  27. nsierra 23 de abril de 2012 at 3:29 am

    Esses giros divertidos que ritmam nossos passos e ocasionam “reolhares”. É como se fossemos de tempo em tempo protagonistas marionetes desse teatro de amores desencontrados

  28. Alana Cortez 25 de abril de 2012 at 5:31 pm

    senti como se você estivesse contando meu “segredo”.. eheheh..

  29. Adriana Brenna Gonçalves 26 de abril de 2012 at 10:57 am

    Olá Daniel!
    Tomei a liberdade de reblogar seu texto [creditando-o, obviamente], e espero que não tenha problema. Como eu comentei no final, se antes eu amava, agora [com uma realidade mais próxima do texto - no fim de um relacionamento de tanto tempo e dedicação] mais ainda.
    Obrigada por compartilhar essa obra! ;)
    Beijos*

  30. Adriana Brenna Gonçalves 26 de abril de 2012 at 11:15 am

    Oops! Estava lendo seus novos textos [como me identifico com eles!], e depois resolvi ver seu perfil pra tirar a dúvida se você trabalha na área da escrita, ou é um “passatempo”, e surgiu a dúvida: “será que podia ter reblogado?” Se não podia, me avise que eu tiro, ok?!

    • Daniel Bovolento 14 de junho de 2012 at 5:11 pm

      Opa, Adriana. Sem problema em rebloggar. Eu trabalho com isso sim, mas não tem problema em dar créditos.

      Agradeço pelo carinho =)

  31. talithac 2 de maio de 2012 at 10:04 pm

    Simplesmente lindo.

  32. Marcella 16 de maio de 2012 at 12:58 am

    Perfeitoooo, bem minha caraa.
    E, pra dizer a verdade, essa menina é o passado de toda mulher que um dia amou alguém.

  33. liseyliz 21 de maio de 2012 at 5:57 pm

    Ela queria mesmo era mostrar todo esse amor no peito que ninguém consegue ver. Engraçado isso. Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente. Bate aqui dentro, acelera os batimentos, não se deixa denunciar. …

    Show!!

  34. liseyliz 21 de maio de 2012 at 5:58 pm

    Reblogged this on liseylize comentado:
    Ela queria mesmo era mostrar todo esse amor no peito que ninguém consegue ver. Engraçado isso. Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente. Bate aqui dentro, acelera os batimentos, não se deixa denunciar.

  35. ╭✽ Leila Barreto ╭✽╯ (@leilocabarreto) 10 de junho de 2012 at 8:24 pm

    Cada dia que passa admiro mais a tua escrita. Tu fala como alguém que sabe mensurar os dois lados de toda história. Perfeita a tua conclusão: “Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente. Bate aqui dentro, acelera os batimentos, não se deixa denunciar.”

    Parabéns!

  36. Marcela Cavalcante 2 de julho de 2012 at 7:33 pm

    Daniel, to sem palavras.. Lindo, perfeito, real… Você descreveu o meu sentimento e de muitas mulheres que já amaram de verdade! Bravo, você é brilhante!

  37. dione 30 de julho de 2012 at 4:38 pm

    Muito bom…
    A Nostalgia das noites na própria companhia….

  38. krisfontes 30 de julho de 2012 at 8:35 pm

    Gostei do final, é bem real! “E, pra dizer a verdade, essa menina é o passado de toda mulher que um dia amou alguém.” Beijos

  39. caldadeamora 30 de julho de 2012 at 9:15 pm

    Acho que a gente categoriza como melhor texto o que se encaixa com a gente. E esse pra mim é o melhor de todos!

  40. Marciane de Souza 30 de julho de 2012 at 10:10 pm

    Abraçar o mundo por causa de um amor que não foi capaz de ter, prática feminina e dor que nunca acaba.

  41. Taty M. 19 de dezembro de 2012 at 8:28 pm

    “O sorriso dela foi talhado a ferro e fogo. E acredito que não há analista ou borracha nesse mundo que a façam apagar o sorriso do rosto. Ela é uma mulher real. E, pra dizer a verdade, essa menina é o passado de toda mulher que um dia amou alguém.”
    Com toda a certeza. Amei.

  42. Patrícia Fons 26 de janeiro de 2013 at 7:47 pm

    Alguma dúvida em relação que o senhor acabou de me fazer chorar ? Acho que não né ?

    Lindo texto Daniel, me impressionando cada vez mais *-* ‘

  43. Isabella 31 de janeiro de 2013 at 12:23 am

    De longe um dos melhores. Muito sensível.

  44. Taty 14 de março de 2013 at 12:58 pm

    “… Amor se torna angústia quando a gente guarda só pra gente”

    Lindooo!

  45. Crisneive Silveira 15 de agosto de 2013 at 3:31 am

    Somos assim. Em algum momento da vida estreamos esta parte da vida e continuaremos a fazer as mesmas coisas todas as vezes que isso acontecer. É uma lição que a gente aprende pra saber como vai ser pq, infelizmente, não evita nada.