Em Relacionamentos

Eu não presto.

Daniel Bovolento

Por / 15 DE março DE 2012

Eu sempre tive essa malícia no sorriso. Meio menino, meio caçador. Meio sem saber o que fazer da vida enquanto observava algumas curvas femininas bem à frente. Aquela mordida no lábio de quem deseja o que vê e aquela timidez de quem não consegue se mexer sem revisar na cabeça por mais de trezentas vezes todos os passos até lá. É atraente essa minha forma de mover as pernas com nervosismo e de esboçar umas palavras sem nexo e propósito. Não aprendi a ser direto nem firme demais na vida. Tenho alma de escritor leviano que desdenha das palavras quando sabe usá-las. Vai ver é por isso que eu não valho absolutamente nada.

Eu fui criado em berço de samba, com conhecimento de malandro e passos de quem sabe o que faz. Conduzo bem qualquer dança e traço uma história com as pernas e os braços de qualquer mulher que se aventure a estar comigo. É coisa meio boba de quem se diverte com os encantos e escolhe a próxima vítima a dedo. Mas eu não posso negar que a diversão toda está em bem querer a conquista. Fui feito assim: a fogo, descontrole e paixão. Numa medida extrema entre o que é possível e o que eu quero. Ultrapassei qualquer descrição de astros, números ou tarots: sou inconsequente demais no amor. Um egoistazinho de meia tigela, se preferir. Um moleque que só sabe priorizar o que quer, se achar melhor. Um cara bom para se divertir e aprender que as coisas não precisam ser tão sérias assim, se quiser. Vai ver é por isso que eu não sou o cara certo pra alguém. Com exceção de você.

E, ao contrário do que contam as histórias, o meu comportamento não foi definido por alguma decepção amorosa ou alguma garota bonita que riu de mim. Não, pelo contrário. Sempre tive aversão a clichês, fossem eles amorosos ou não. Fui feito à base de grandes mistérios e não me contentaria em sentar por aqui e contar uma história sem algum enredo interessante. Vai dizer que não sente um arrepio quando ouve as minhas histórias e me olha nos olhos? Aliás, eu sou profissional na arte de mentiras sinceras quando estamos na fase do olho no olho. Não é que eu seja mau caráter, longe de mim. É que eu gosto de brincar com você e construir algumas ficções. Gosto até de me fazer de personagem de qualquer história que você queira montar. Mas, no final, eu vou te deixar sozinha. Não fui feito para durar muito. Mas eu quero te conquistar, menina. Levanta logo dessa cadeira e chega mais, vem…

Você gosta dessa coisa de se fazer de difícil pra mim, não gosta? Ah, mulheres. Mas eu já te ganhei, eu sei. É fácil perceber pelo nervosismo enquanto eu giro ao seu lado e passo a mão por uma das suas coxas despretensiosamente. Sem segundas intenções, prometo. Acho que a essa altura do jogo você já sabe que todas as minhas promessas são furadas e que eu não brinco em jogo. Sem segundas intenções. Mas com terceiras, quartas, um quarto e nós dois. Fui educado para ser rápido, malicioso e conclusivo. Bomba de efeito moral, sabe? Sem o estrondo de Hiroshima e Nagasaki. Sem detonar cidades e quarteirões. Eu gosto de sustentar o olhar através do silêncio. Quem faz muito alarde não tem tempo de desabar no seu pescoço com algumas palavrinhas sujas. E eu ainda gosto de rir quando faço isso. Casanova teria inveja de mim se pudesse. Ah, a minha pretensão. Faz parte do charme, meu bem. De nada adiantaria contar essa história se não pudesse me gabar dela no final. Exibido, pretensioso e com um ego inflado. Ninguém pode me parar se eu não quiser. E ainda vai ter motivo. O problema são esses jogos, essas pernas descobertas, esses batons vermelhos que me fazem dar uma olhada. Meu fraco sempre foi o perfume, na verdade. Sou fraco por você e por algumas outras.

Eu fui feito a gatilho apertado por descuido. Sem estrondo. Igual mesmo é só o tamanho da confusão. Mas você gosta, eu sei. Se não gostasse, não chegaria mais perto pra dizer “você não presta”. Pode me chamar o quanto quiser até amanhã de manhã. Porque depois disso, eu vou contar a minha história para outra que me diga a mesma coisa e eu responda com um olhar sacana, um sorriso de lado e um “eu sei”.

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DANIEL BOVOLENTO

Carioca em São Paulo, redator, marketeiro, consultor de conteúdo e escritor. Falo mais sobre relacionamentos que a maioria.

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