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Uma Odisséia (Sentimental) no Espaço.

Daniel Bovolento

Por / 9 DE fevereiro DE 2012

Uma Odisséia (Sentimental) no Espaço.

Hoje eu acordei diferente dos outros dias. Foi como se um novo big bang tivesse acontecido. Dessa vez, a formação do meu mundo excluiu todas as partes ruins de um passado não tão agradável assim. E exclui também toda a esperança de um futuro melhor. Exclui até mesmo o presente de indecisão que eu sempre vivi. Exclui tudo. Um dia a gente acorda sentindo nada. Sem dor, sem raiva, sem paixão. Zero emoções.

Eu passei muito tempo viajando por aí e conhecendo mundos e fundos. Fiz amizades mais valiosas que a busca por algum novo combustível que me mudasse completamente, conheci a lua de perto com alguns anti-amores imaginários que carreguei em fotografias e pisei em nuvens (coisa que sempre fiz quando deixava meus devaneios atingirem níveis espaciais). E me surpreendi com o tipo de habitante de cada um deles. Jovens bem resolvidos, idosos ainda perdidos, gente com todo o tempo do mundo e mais de 200 anos para encontrar alguma coisa que fizesse sentido. Foram meteoros, supernovas e constelações inteiras para que eu me desapaixonasse por você mais uma vez e de uma vez por todas.

De repente eu me pego acordando de um sono profundo. Ainda sou eu e esses cometas de passagem por fora da astronave. Meus planetas foram finalmente realinhados depois da guerra civil entre nós dois. Foram dias sem dormir, correndo de um lado pro outro desde que você invadiu de vez o meu planeta. Se eu soubesse que aqueles sorrisos eram bombas devastadoras de qualquer humanidade que existia dentro de mim… Mas foi bom isso, sabe? Te deixar explodir algumas coisas aqui dentro, mudar continentes inteiros de lugar, reorganizar a minha geografia de acordo com o seu gosto. Você colocou uma bandeira no topo do meu mundo e declarou dependência. A minha dependência de você. E quando você resolveu voltar pro seu planeta-natal, eu resolvi sair por aí numa astronave. Meu mundo já estava todo do avesso mesmo, que se dane.

Foram muitas estrelas cadentes e aquela velha história de pedir algo que fosse importante. Bobagem isso de pedir pra uma simples estrela algo que só você pode cumprir. Não há destino, carma ou superstição que me faça pensar o contrário. As estrelas cadentes são mais parecidas com a gente do que a gente pensa: solitárias, seguem um trajeto a fim de encontrar algum sentido. Perseguem os céus e o espaço em busca de algo que nem elas mesmas sabem o que é. Meu primeiro pedido foi que um boom qualquer no universo me indicasse o lugar onde você estaria. Eu sempre fui meio masoquista mesmo. Me estragou por completo e me destruiu inteiramente. E eu achando que isso era amor. Mas descobri que eu não fui o único planeta que você invadiu. Você era dessas corsárias espaciais em busca de alguma aventura de vez em quando. Leviana e perigosa. E extremamente simpática, educada e bonita. Não só de mocinhas sensíveis vivem as histórias de amor…

Independência. Não sei como nem por quê. Talvez tenha sido alguma estrela cadente num último pedido – não se pode desprezar a força e vontade de um ser desses. Talvez tenha sido alguma energia galáctica que me mudou. Talvez eu tenha aprendido a lição e entendido que essa busca incansável por quem me fez tão mal não tem sentido algum. Agora eu já não sinto nada. E até que isso tem alguma alegria quando a busca chega ao fim. Encontrei alguma coisa mais preciosa do que você: alegria. E o Planeta Terra não me parece um lugar tão ruim assim pra se viver. Talvez eu volte e reconstrua tudo de novo. Se bem que, pelo visto, o reverso do avesso funcionou muito bem. E, na tentativa de me invadir por completo, você me ensinou a me defender de vez. Na tentativa de brincar um pouco e ir embora, você me ensinou a gostar mais de mim mesmo e dessa coisa bonita que são as viagens por dentro de nós. Na tentativa de me fazer perder uma vida inteira te buscando, você me deu coragem pra começar de novo e conseguir entender que o mundo vai muito além de um simples planeta azul. O topo do meu mundo foi conquistado novamente – e dessa vez a bandeira é minha, só minha e de mais ninguém. De tanto procurar por algum sentido, eu encontrei bons motivos para poder descansar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.

(Música: Space Bound – Eminem)

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DANIEL BOVOLENTO

Carioca em São Paulo, redator, marketeiro, consultor de conteúdo e escritor. Falo mais sobre relacionamentos que a maioria.

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