How could you be so Heartless ?

Ela não ia me ligar nunca mais, eu acho. Essa foi uma das promessas estúpidas de uma garota com o coração partido. Eu já acho que vai ser igual às demais promessas dela. Como aquela de começar uma dieta ou a de fazer caridade todos os sábados. Convenhamos: quem trocaria seus sábados de diversão por passeios em asilos e orfanatos? É assim no nosso relacionamento. Eu nunca deixaria meus sábados de glória por uma noite no sofá com ela.

Pobre garota, se acha popular e tem a autoestima nas alturas. Mal suspeita que a minha entrega é superficial e efêmera assim como a julgam ser. Não conseguiria ficar longe de mim por mais de um, dois, três, quem sabe quatro dias. Ela não conseguiria esquecer as noites estreladas e dos mil e duzentos filmes de comédia romântica que me fez assistir comendo pipoca gordurosa enquanto ria da sua ternura quase infantil. Essa mulher não tem manual. Mas uma coisa é certa: ela vive suas próprias vontades. E, veja bem, ela não conseguiria ficar por longe sem sentir um mínimo de falta minha. Eu a completo. Ela sabe. Mesmo que eu insista em negar isso e só utilize esse argumento nas noites de sexta-feira em que saio mais tarde do trabalho e meu quarto pede companhia debaixo dos lençóis.

Ela quebrou seu coração sozinha. E quando eu pensava que não tinha como ser mais piegas, ela ainda me vem com essa. Aquele papo furado de quem não quer mais saber de nada e procura justificativa. Todo final de relacionamento tem um pouco disso. Um pouco de dor e um pouco de comédia. Uma tragédia grega assistida por troianos. As desculpas esfarrapadas e os motivos que ela encontra são dignos de tese de mestrado. Nem o melhor dos advogados conseguiria defender argumentos tão bem disfarçados e manipulados. Ela se acha inteligente demais para a maioria dos homens, mas a verdade é que ela só consegue pensar sobre um mesmo assunto: ela mesma. E seu ego a devora. É auto-suficiente e ainda depende de mim em contradição.

Ela deveria me ligar. Já mandei mensagens enquanto apagava seu número do meu telefone. Já menti sobre o que eu sinto, enquanto tentava usar isso como um mantra. Quem sabe a repetição me salvasse e os hábitos se transformassem com o costume. Ela nunca gostou mesmo das minhas comédias românticas. E o meu sofá só tinha sua presença quando voltava de alguma grande festa, embriagada, ao raiar do dia. Ela me completa. E desdenha de mim sempre que possível. Egoísta, sabe. Daquelas que não precisam de você, mas o mantém pela simples satisfação de não passar a noite sozinha. E, veja bem, eu tenho alguma certeza que ela brilhou comigo. Que seus olhos reluziram em algum momento da estrada. Que a rispidez das suas palavras deveria ter vindo com entonação errada ou era um problema de voz. Ela queria ser doce, mesmo que de forma amarga. E-go-ís-ta.

 “Eu não preciso mais de você e foi legal enquanto durou. Mas eu quebrei meu coração comigo mesma dessa vez. Achei que conseguiria, mas você não foi o suficiente. Quem sabe a próxima menina possa tirar algum proveito do que eu deixei? Todo mundo precisa de alguém que quebre seu coração e o molde a mãos nuas. Corações personalizados, com marcas a dedos quentes, sensações únicas de cada um. Eu não quebrei o seu, mas consegui fazer um belo estrago. E, meu bem, não seja egoísta. Passe adiante tudo o que te ensinei. Você pode ensinar alguém que a vida é mais dura do que parece ser. Afinal, essa história de príncipe encantado está totalmente fora de moda. Beijo grande e boa sorte com o que conseguir juntar do que eu levei.”

Ela não vai ligar nunca mais. Fez as malas e bateu a porta com tanta força que nem mil e quinhentos homens conseguiriam abri-la e fazer com que ela volte. Óculos escuros, batom vermelho e jaqueta jeans. Egoísta.