A noite estava barulhenta, cheia de luzes e ofuscada pelo brilho intenso dos faróis dos carros que passavam pela rua. Cheguei no bar achando que seria mais uma das minhas bebedeiras, meu modo preferido de desabafar para mim mesmo as coisas que aconteciam na minha rotina entediante. Casa, trabalho, casa, bar às vezes … Minha vida se resumia a isso nos últimos dois anos. Um velho jovem de 22 anos, entediado com a estabilidade amarga que uma vida pode oferecer.

Sentei e chamei o Carlos. Carlos é daquele tipo de amigo-garçom que já te conhece, já sabe o que você vai pedir e ainda te trata amigavelmente. Poupa tempo e te faz sentir entre amigos numa cidade onde você só conhece as pessoas do trabalho. Ele sabia que eu sempre começo pelo whisky e, depois, me animo e vou para as cervejas, as loiras da minha noite. Não que seja saudável esta mistura, mas quem se importa ?

Foi na terceira cerveja depois do whisky que eu percebi algo diferente naquele bar. Encontrei olhos verdes amargos, dentro de um corpo escultural, com cabelos castanhos de pontas onduladas. Não tinha nada de muito diferente das outras mulheres bonitas. Mas tinha os olhos amargos e isso muito me chamou a atenção. Deixei-me levar pela música, admirando o suspense que aqueles olhos escondiam. E eles estavam fixos em mim, coisa que só percebi depois de muito tempo.

Sabe quando se encontra a fonte de todo o egoísmo ? Então, dentro daqueles olhos amargos, eu encontrei uma dose de amor de mulher, bebida que eu nunca havia antes experimentado. E eu notava o jogo em que eu estava entrando, num labirinto, numa estrada em contramão. Eu entendia cada movimento das pupilas, cada palpitar das pálpebras. Mas ela não notava nenhum som, nenhuma ameaça minha. Ser mocinho ou bandido, não me importava mais, só queria um jeito de calar aquele frisson.

E, de repente, a beleza dos olhos dela se orienta, procurando uma nova direção. Me deixou no vazio, parado, assimilando tudo o que havia acontecido em segundos … Era menina nova, bonita, mas já sabia ser mulher. Era isso que havia me encantando. E como amor de mulher, não se podia deixar levar por olhos levianos como os meus, então se desconectou.

Já era tarde, paguei a conta, dei um abraço no Carlos e já ia embora. Foi quando ela passou por mim, deixando um sorriso. “Oi, tudo bem ? Como se chama ?”. Eu só pude responder meu nome depois de perceber que os olhos amargos se fixavam nos meus. “Me chamo Rodrigo. E você ?”. Ela se chamava Beatriz … E como boa atriz que era, soube expressar nos olhos mais do que eu poderia entender. Deixou nos olhos o sorriso e o coração.

Não pude ir embora. Não poderia deixar de conhecer a eternidade de olhos tão amargos, mas tão sensíveis como aqueles verdes da menina-mulher. E é assim que uma mulher conquista um homem, não pela pura beleza, mas pela surpresa, pelo mistério. E para um apaixonado por bebidas como eu, um drink novo, uma única dose de amor de mulher era extremamente necessária para se criar a instabilidade da qual eu precisava.